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Falou aos Homens, de Deus. Agora vai falar a Deus, dos Homens

É difícil negar que Bento XVI falou aos Homens, não só oralmente, mas também a partir dos seus escritos, e é bom recordar que a palavra oral passa, mas a escrita permanece. Parafraseando Júlio Dantas na sua peça “A Ceia dos Cardeais”, apetece-me escrever: Há se os mentores da economia no nosso país lessem Bento XVI, como “seria diferente a economia em Portugal e no mundo”. Na Encíclica Caritas in veritate, Bento XVI apresenta a necessidade de “formar um válido critério de discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo ético…chegando-se a fazer passar à sua sombra decisões e opções contrárias à justiça e ao verdadeiro bem do homem” (CIV, 45).

Maria Fernanda Barroca
23 Fev 2013

A Encíclica recorda que o mercado não existe “em estado puro” nem pode ser invocado para resolver todos os problemas sociais.
O que nós vemos, mesmo sem ser perito no assunto é que grande parte da ética negocial, ignora quase tanto “a inviolável dignidade da pessoa humana, como o valor transcendente das normas morais naturais” (CIV, 45). Muitos dos que embora concordem com a transcendência das normas morais, não chegam à premissa principal: o homem foi criado à imagem de Deus.
Bento XVI não foge à abordagem de um dos factores envolvidos na economia: o lucro e a sua função. “O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo do lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e a criar pobreza” (CIV, 21).
Já o Papa Paulo VI na Encíclica Populorum Progressio se referiu ao “desenvolvimento humano integral”, quer dizer, que os lucros não são fim em si mesmos, mas instrumentos que possam contribuir ao bem de todos.
O ódio que algumas ideologias de esquerda conseguiram criar entre ‘empregadores’ e ‘empregados’, foi convencer estes últimos que estavam a ser explorados, porque o que os primeiros ganhavam era muito mais do que eles, os ‘empregados’ recebiam. Isso é normal e não só se pede, mas exige–se, que não haja exploração: desemprego criado por deslocalização, salários baixos com contratos precários aproveitando o excesso de mão-de-obra, etc. Que quem investe deva ver recompensado o seu capital é o normal, pois correu riscos, que muitas vezes, se é honesto, para satisfazer compromissos se vê numa situação financeira precária.
É realmente “errada a visão de quantos pensam que a economia de mercado tenha estruturalmente necessidade de uma certa quota de pobreza e de subdesenvolvimento para funcionar do melhor modo” (CIV, 35).
Superior ao mercado é a comunidade política ou Estado que tem a função de redistribuir a riqueza. Ao contrário da visão determinista da globalização, segundo a qual a economia invade a soberania e a autoridade do Estado e até a vontade humana, a Encíclica, seguindo a opinião do beato João Paulo II, afirma: “a globalização não é à priori, nem boa nem má. Será aquilo que as pessoas fazem dela”.
Bento XVI na sua Encíclica Deus é amor, ensina que “o ser humano está feito para o dom” – feito para o amor, “que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência” (CIV, 34). O beato João Paulo II já tinha destacado que há uma “economia da gratuidade e da fraternidade”, na sociedade civil, que não quer substituir nem o mercado, nem o Estado, nas suas funções.
Actualmente estamos a assistir, entre nós, ao contrário. O Estado auto-demitiu-se das suas responsabilidades e com a carga asfixiante de impostos, que leva ao desemprego e à perda de poder de compra, tem lançado a insolvência em muitas empresas, sem fraude da parte dessas. Se não fosse a iniciativa privada, as associações não-governamentais, o auxílio das Igrejas das diferentes confissões religiosas, a fome, a miséria, o desespero que leva a extremos que nos angustiam, seriam muito maior.
Por isso eu deixava um conselho gratuito, porque ninguém mo pediu: escutem Bento XVI quando fala de «Reabilitação da ética económica».
Com tudo isto, Bento XVI falou de Deus aos homens. Agora, depois do dia 28 deste mês, vai, no silêncio, na reflexão e sobretudo na oração, falar dos homens a Deus.
É muito simples de perceber: «Quando os pais estão separados dos filhos, por razões de trabalho ou de doença também não esquecem os filhos».
E nós, católicos ou não, basta sermos pessoas de boa vontade, também não esqueceremos o Pai e neste momento só temos que dizer: OBRIGADA, SANTO PADRE.
Nota: Consultar as duas Encíclicas de Bento XVI, referidas no texto e um artigo de Alejo José G. Sison, sobre a «Reabilitação da ética económica», publicado na Aceprensa de 7 de Setembro de 2009.




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