Fotografia:
Um olhar em redor

Numa destas noites frias e tormentosas de inverno, fustigada por chuvas torrenciais e trovões ameaçadores cujo eco se repercute e rola pelas encostas das montanhas, em que, por vezes, as horas avançam e o sono tarda, fui-me deixando ficar neste meu pequeno local de trabalho, um quarto repleto de livros, quadros e bustos representativos de grandes homens (alguns deles, sem embargo do seu génio, por igual conheceram a glória, o apogeu, a decadência e o ocaso – até mesmo o opróbrio), local que constitui para mim como que um refúgio, ou reduto propício ao recolhimento, à leitura e à meditação.

Joaquim Serafim Rodrigues
20 Fev 2013

Há, de resto, numa noite assim, algo de wagneriano, fragoroso e formidável, tal como em algumas das suas portentosas composições. Mas foi durante uma certa acalmia em meio do temporal, quando o homem se apercebe, enfim, da sua incapacidade e pequenez ante a força telúrica dos elementos, que dei comigo a pensar: cada qual tem o seu papel a desempenhar neste Mundo, conforme as suas obsessões, os seus caprichos, a sua idiossincrasia, o seu destino inevitável, o seu fado, podendo ele ser aberrante, anormal, contrário ao senso comum ou, por outro lado, esplendoroso e gratificante.
Apodera-se de mim uma inexprimível tristeza, agora que as guerras ditas localizadas alastram por toda a face deste nosso globo terrestre, e quando verifico que o homem, além de pôr os seus interesses acima de tudo, encontrou também a sua arma mais mortal – o ódio.
Não é dessa maneira que acabam com tais conflitos, com tantas tragédias, nos quais e não poucas vezes são imolados milhões de seres inocentes, mas usando a capacidade de procurar conhecer e respeitar os outros. Salomão ficou memorável pela cintilação do seu pensamento, enquanto as incríveis riquezas que reuniu e os seus palácios e templos das mil e uma noites foram reabsorvidos pelos séculos, como as águas das marés.
Constrange-nos, pois, ver os homens entregues aqui e ali à destruição de si próprios, fomentando e mantendo operações militares sem sentido, ou debatendo-se em lutas vãs, mesquinhas, desleais, seja em que região for e que a ninguém aproveitam. Por isso, e falando de lutas, pensamos somente nas grandes causas, naquelas que apenas são ganhas à custa de muito esforço, tenacidade e saber, de sacrifícios sem conta e rara nobreza moral, principalmente quando travadas em prol desta Humanidade inquieta, martirizada na carne e na alma, mas que alcançará um dia, se acreditar e não se deixar abater, a paz inalterável, absoluta, a que tem direito, mercê da sua redenção.
Finalizo: quanto aos nossos actos, quem pode julgá-los é Deus, uma vez libertos deste invólucro que nos protege e defende, de certo modo, ao longo desta nossa atribulada e transitória existência terrena.




Notícias relacionadas


Scroll Up