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Braga – regenerar ou degenerar

Dos dicionários:Regenerar – reorganizar, restaurar, melhorar, aperfeiçoar, reabilitar;
Degenerar – adulterar, abastardar, corromper, perder qualidades, passar para pior.
Terminadas as obras da propalada regeneração de algumas zonas centrais da cidade, é tempo de fazermos uma reflexão séria e desapaixonada sobre a sua oportunidade e necessidade. E, nesta fase negra da vida económico-financeira e social do país, a conclusão é óbvia: nem oportunas, nem necessárias tais obras devem ser consideradas.

Dinis Salgado
20 Fev 2013

Ademais, começam já a ver-se, aqui e além, a substituição de lajes partidas ou a reparação de pisos que vão cedendo. E isto, porque o ritmo das obras foi demasiado acelerado e, depois, o trânsito de veículos, quantas vezes bem pesados sobre lajes tão frágeis e pouco consistentes, só pode resultar em danos permanentes.
Quem reparar, por exemplo, no piso das avenidas Central (lado Sul) e da Liberdade (do Turismo à rua do Raio), constata já a sua deterioração evidente: lascado, desnivelado e partido. Igualmente dada a sua textura porosa, vulneráveis são às manchas de líquenes, chicletes e óleos derramados pelos automóveis o que o torna sujo e feio.
Ora, daqui podemos concluir que os nossos antepassados, quiçá, mais economistas, prudentes, futuristas e sábios do que nós, faziam obras públicas mais duradoiras, económicas e seguras. Os pisos que, agora, se substituíram nestas artérias e passeios duraram muitas décadas e raras intervenções de reabilitação necessárias foram. Por exemplo, as ruas que o presidente Santos da Cunha mandou traçar e abrir são, ainda hoje, as mais amplas, rasgadas e estruturadas da cidade.
Então, se pensarmos nas intervenções urbanísticas efetuadas, ao longo destes trinta e sete anos de gestão autárquica socialista, na avenida Central e no rio Este, chegamos à triste conclusão que de tanto se regenerar se acabou por degenerar. Enquanto que, no rio Este, a regeneração passava, fundamentalmente, pela restituição das suas margens ocupadas por prédios, na avenida Central era a reposição da sua ancestral condição de ampla e festejada sala de visitas, convívio e lazer dos bracarenses e visitantes que devia ser considerada.
Mas, não. O rio continua, de regeneração em regeneração, sem todas as suas margens utilizáveis e frondosas, águas despoluídas e abundantes e fauna e flora vivas; e a avenida Central, desprovida da imprescindível verdura, transformada está em braseiro no verão e frigorífico no Inverno e, como tal, sem as condições e apetências necessárias de palco privilegiado de convivialidade, deambulação e fruição.
Vivo em Braga já vai para sessenta anos. E porque assisti a demasiadas operações de cosmética urbanística, cada vez mais saudades tenho da cidade provinciana, maneirinha, despoluída, familiar e segura desses tempos, onde peões, elétricos e automóveis conviviam pacífica e comodamente.
E mesmo sem a mais extensa zona pedonal, o mais comprido túnel rodoviário, o maior número de eiras do país ou os guetos em que se transformaram as quintas, quintais e espaços verdes suburbanos, essa era uma cidade onde, realmente, era bom viver. Depois, o que me preocupa mesmo é saber que vamos legar aos nossos netos uma cidade menos apetecida, estruturada e habitável do que aquela que dos nossos antepassados herdámos. O que nos leva a perguntar:
– E bom viver em Braga?
E lógico responder:
– Só pr’alguns! Só p’ralguns!
Então, até de hoje a oito.




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