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Os números não são neutros

O pior que podia acontecer é que os números não dissessem nada. Que fossem neutros. Que não significassem nada. Mas os números dizem sempre alguma coisa. São matemática e como tal têm sempre um significado para quem quer que seja o utilizador. Podemos é não querer usá-los para não ter de dizer isto ou aquilo por não dar jeito ou por ser inoportuno. Mas há sempre uma leitura. Até pode ser enviesada, mas há.

Luís Martins
19 Fev 2013

Vem esta conversa a respeito dos últimos indicadores de desemprego e do Produto Interno Bruto (PIB). Nem por isso desfasados das previsões mais rigorosas, contudo, preocupantes e inquietantes. Graves. O país tem estado em emergência e os dados parecem evidenciar uma tendência de aprofundamento da crise. Não que não fosse esperado um agravamento da situação, face às condicionantes económicas e financeiras, mas porque os números são mais negativos do que as previsões mais optimistas.

Parece agora evidente que não será aceitável teimar mais e resistir em não ver o que todos, ou quase, já previam. O Governo ansiava que a degradação dos indicadores não acontecesse e para se resguardar admitiu o menos grave. Infelizmente, a taxa de desemprego ultrapassou já o score previsto para o ano de 2013, tendo atingido 16,9% em Dezembro último. Por causa da teimosia. Houve avisos que não foram escutados. No trabalho de previsão deve-se usar de suficiente cautela e precaução. Não foi o caso. Agora, as consequências acabarão por se reflectir em termos orçamentais, com a receita a derrapar por via de menos contribuições patronais e dos trabalhadores para a segurança social e com a despesa a subir mais do que o orçamentado. A confirmação virá em breve.

Na leitura da situação, não se aceita que se nos diga tão-só que a taxa de desemprego é preocupante. É muito pouco. Não se pode ficar no mero comentário. Não é sério desmentir o óbvio. É preciso fazer algo para que tal não aconteça. Até porque se teme que haja ainda agravamento se nada for feito. E os portugueses merecem outro cuidado. As prometidas políticas favoráveis ao emprego não se vêem. Para já, nem com infra-vermelhos.

Certo é que o Executivo não se pode queixar de falta de paz social. Tem-na tido toda ou quase. Tem havido aqui e acolá manifestações, mas nada que faça perturbar o normal funcionamento da economia. A verdade é que esta não anda, antes pelo contrário, entre outras razões porque as algibeiras andam vazias. E o resultado tem sido, a cada dia que passa, de mais algumas centenas de trabalhadores a ficarem sem emprego. Por isso, esperar que a situação melhore, como se isso fosse possível sem medidas que atraiam investimento e criação de emprego, não é mais aceitável.
A pouco e pouco o Governo vai admitindo que o país está prestes a entrar numa espiral recessiva. Está a custar fazê-lo, depois de a ter negado peremptoriamente, mas por estas ou outras palavras não poderá deixar de o reconhecer por mais tempo. Os últimos números oficiais sobre o PIB vieram confirmar o que se admitia desde há mês e meio, pelo menos. Desde que o Presidente e não só o afirmaram. Na verdade, o ano transacto terminou com uma contracção de 3,8% da economia, contribuindo para uma média anual negativa de 3,2%, superior às previsões do Governo.

Não considero irrelevante a diferença face ao estimado (duas décimas se considerarmos a última previsão ou quatro décimas se nos ativermos na primeira previsão do Executivo), como o ouvi de alguns políticos. Duas décimas representam 6,7% a mais no valor estimado. São sempre muitos milhões de euros, e se os números em causa são valorizados para uns aspectos por que haveriam de não sê-lo neste caso? Se o país anseia pelo crescimento que, aliás, tem sido prometido desde o início do mandato do actual Governo, qualquer décima faz toda a diferença. Desvalorizar a decepção com que se recebe uma má notícia é não compreender as preocupações das pessoas que sentem na pele as consequências do desvario de uns e as medidas draconianas de outros.




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