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A resignação do Papa Bento XVI e o futuro da Igreja Católica

No dia 11 do presente mês, o Papa Bento XVI anunciou a sua resignação, um gesto que surpreendeu o mundo.Com efeito, o último Papa que renunciou de livre vontade foi em 1294 o eremita Pietro Angeleri, que adoptou o nome papal de Celestino V. Mais perto de nós, Gregório XII também se demitiu, em 1415, não tanto por vontade própria, mas para garantir a unidade da Igreja, então dilacerada pelo Grande Cisma do Ocidente.
Foi um gesto de uma grande grandeza moral, lucidez e humildade, que deveria ser seguido como exemplo noutras estruturas da Igreja e da sociedade em geral. De um modo lúcido e ponderado, sentiu que não tinha as energias psíquicas e espirituais para liderar a Igreja Católica, sobretudo numa época, como a nossa, na qual os desafios do mundo, com incidência na fé, são gigantescos e não cessam de crescer.

Daniel José Ribeiro de Faria
19 Fev 2013

É ainda prematuro fazer um balanço do pontificado de Bento XVI, mas pode-se apresentar algumas pistas de reflexão. Deste pontificado fica a relevância do diálogo entre a fé e a razão, o prosseguimento do diálogo como as outras confissões cristãs e com as diferentes religiões, o empenho na paz entre israelitas e palestinianos e a defesa de uma globalização regulada e socialmente justa, que foi proclamada pela encíclica “Caritas in Veritate”. 
Mais do que um líder, Joseph Ratzinger é um intelectual, aliás brilhante. É justo reconhecê-lo com um dos três pensadores cristãos mais importantes da atualidade, juntamente com o teólogo Hans Kung e o Dr. Rowan Williams, o antigo arcebispo anglicano de Cantuária.
Anunciada a resignação, já começou a ser abordada a questão da sucessão. Mas mais importante do que a questão da sucessão, temos que compreender o actual momento histórico e a necessidade premente de promover reformas estruturais na Igreja, de modo que ela possa ser um farol de esperança não somente para os cristãos de todo o mundo, mas para todos os seres humanos com quem partilhamos o nosso planeta Terra.
Não é tempo de retoques parciais. Na actualidade, é preciso ir ao essencial. Legitimamente, há quem questione a forma de designação do Papa, actualmente feita pelo colégio dos cardeais, sugerindo que ela deveria ser feita por um colégio constituído pelos presidentes de todas as conferências episcopais do mundo, refletindo de uma forma mais adequada a universalidade e a diversidade da Igreja.
A Igreja Católica, tal como as demais Igrejas cristãs, precisa de focalizar-se na essência do cristianismo, seguir Jesus e o seu Evangelho, promover uma evangelização que leve a uma experiência espiritual mais autêntica de Deus. Mas que também seja profética na proclamação de um modelo de desenvolvimento baseado na dignidade da pessoa humana e na ecologia, colocando-se ao lado do mundo dos pobres e excluídos que são a maior parte da Humanidade, e da mãe Terra, que está seriamente ameaçada.
Numa época de crise universal, a Igreja deve ser um sinal da presença do Espírito de Deus, o Espírito que nos impulsiona a promover a libertação dos seres humanos de todos os tempos e de todos os lugares, de modo a fazer do nosso planeta Terra um mundo mais livre, solidário e sustentável.




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