Fotografia:
Uma lição de alcance universal

Há ocasiões em que se percebe com mais facilidade não apenas o que é a erosão do sentido do sagrado como também a dificuldade que muita gente demonstra em entender qualquer modo de viver e de agir que não seja ditado pela predominante lógica utilitarista. Um desses momentos apresenta-se agora com a resignação de Bento XVI. Lendo ou escutando um abundante número de comentários sobre esse gesto, é possível, por exemplo, detectar os efeitos de uma ampla formatação ocorrida, sobretudo, por via da televisão. A homogeneização que ela provoca torna indistinto sair da Casa dos Segredos – ou de outros concursos imbecis de Teresa Guilherme – ou deixar a cadeira de São Pedro.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
17 Fev 2013

Tudo pode, pois, ser sujeito à mais extrema simplificação: “Concorda com a renúncia de Bento XVI? Ligue para o 4008001. Discorda da renúncia de Bento XVI? Ligue para o 4008002.” A escolha dos sucessores propiciará idêntico simplismo: “Quem deve ser o próximo Papa? Para votar no cardeal Marc Ouellet, ligue para o 4008010. Para votar no cardeal Leonardo Sandri, ligue para o 4008011. Para votar no cardeal Christoph Schönborn, ligue para o 4008012. Para votar no cardeal Peter Turkson, ligue para o 4008013”. Os media colocam, assim, ao alcance de todos, a democracia directa pelo preço de uma simples chamada de valor acrescentado.

Mas, sobre a resignação de Bento XVI, há, igualmente, nos media, comentários reflectidos, repletos de inteligência e sensibilidade. Uns magoados, outros gratificados, todos surpreendidos.

“É mais fácil tomar do que deixar, dizer sim do que dizer não. Quase tudo nos empurra, quase sempre, a dizer sim ao que se nos oferece e nas condições em que o encontramos: o medo de ofender ou de fazer sentir mal alguém, o medo de ficar fora de jogo, o espanto ante as mudanças da nossa vida, antigos e arreigados imperativos morais, frequentemente sagrados, que impõem o dever de agir, de combater, de permanecer no seu posto como os capitães de Conrad no comando de um navio numa grande tempestade”, escrevia Claudio Magris, um dos mais importantes escritores contemporâneos na página 11 do Corriere della Sera de quarta-feira (“Quando il no serve ad affermare la libertà e la dignità della persona”). Por isso, acrescentava, é compreensível “que o grande e inamovível não pronunciado por Bento XVI tenha desconcertado tantas pessoas, fiéis ou não, surpreendidas pela renúncia ao mais alto posto e de maior responsabilidade no mundo”. Sendo embora compreensível haver quem admire e quem deplore a decisão do Papa, prossegue Magris, estes sentimentos legítimos não autorizam ninguém “a erguer-se cómoda e arrogantemente juiz de uma resolução dramática, sofrida, mas tomada com uma extraordinária firmeza”.

Para o autor de Danúbio, obra-prima da literatura do século XX, é mais fácil, em geral, dizer que sim, “mas é com o não que se afirma a liberdade e a dignidade de um indivíduo: recusar e portanto mudar o que parece imutável, reverter uma situação consolidada que parece indiscutível, não incensar os ídolos, às vezes mascarados de deuses”. O gesto de Joseph Ratzinger é, segundo Claudio Magris, “um acto revolucionário que rompe as regras, os costumes e as expectativas prudentíssimas da Cúria Romana, cautelas circunspectas radicadas nos séculos e convertidas em ADN”. Na verdade, “dar-se conta, abertamente, da própria debilidade e inadaptação é uma das maiores provas de liberdade e de inteligência”.

No artigo do Corriere della Sera, não falta espaço para uma referência a um memorável encontro que Magris teve com o Papa quando apresentou um dos volumes da obra Jesus de Nazaré, de Bento XVI. As cidades de que ambos gostavam foi um dos temas da conversa, que incluiu referências a “algumas passagens extraordinárias do livro sobre Jesus, como, por exemplo, aquela em que é afirmado, com grande coragem, que a vida eterna não é uma espécie de tempo infinitamente prolongado, mas, sim, a vida autêntica e cheia de significado, o instante absoluto da verdade”.

Magris sublinha ainda o que no gesto de Bento XVI é incomum, algo que, aliás, outros, em vários países, têm igualmente enfatizado: “A sua renúncia ao trono é um gesto supremo, especialmente em Itália, onde quase ninguém é capaz de renunciar ao mais miserável cargo, talvez porque esse cargo seja a única realidade pessoal, todo o Eu; porque sem o cargo a pessoa se evapora como um mau odor”.

Em França, Bruno Frappat subscrevia, anteontem, no diário La Croix, de que já foi director, idêntica observação. Depois de apresentar as palavras mais usadas para enquadrar o acontecimento que Bento XVI protagonizara, seleccionava a que lhe parecia a mais acertada: sabedoria. “Sabedoria, mas exemplar”. Afirma Frappat que, num universo humano dominado pelo desejo de esmagar os semelhantes com os poderes que não se largam, pois tanto custaram a obter, “afastar-se por si próprio do ‘trono’ e das aparências do poder, eis o que é uma lição de alcance universal”.




Notícias relacionadas


Scroll Up