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Da exortação ao anúncio direto

Num tempo em que aparece muito claro o abandono da fé por parte de gente nova e menos nova que cresceu e viveu na comunidade cristã, sente-se a urgência de avaliar as causas e tomar consciência de que nem tudo é culpa do ambiente secularizado e da falta de esforço de quem deixa a Igreja e a prática dos atos de culto.Vemos, com mais frequência, que se exortam as pessoas para que não abandonem a Igreja, fortaleçam e esclareçam as suas convicções religiosas, renovem os seus esforços de fidelidade, permaneçam nas comunidades em que nasceram e fizeram caminhada cristã.

D. António Marcelino
17 Fev 2013

A exortação pode ser útil para fazer pensar e acordar rotinas, para se tomar consciência do valor que cada um dá ao dom da fé, para não ir na onda da facilidade ou da crítica preconceituosa. Exortar é, de algum modo, advertir sobre o sentido que têm na vida dos que se dizem e julgam crentes o Deus único e os outros, considerados irmãos ou simples companheiros de peregrinação ao longo da vida.
As situações de desinteresse e mesmo de abandono da fé são as mais variadas e podem diferir de pessoa para pessoa. Não falta gente que nunca enraizou no coração a sua fé; gente para a qual acreditar foi sempre muito fácil, como se tornou fácil deixar de acreditar; gente que não fez qualquer esforço, nem se decidiu aproveitar as possibilidades de poder ter uma fé adulta; gente que concebeu sempre as atitudes religiosas como coisa à margem da vida; gente que, por falta de formação e de convicção, se deixou enrolar ante as críticas, as propostas, critérios e valores de uma sociedade indiferente e antagónica em relação à religião. Muitos dos que abandonam a Igreja procuram, desafeiçoados, outras expressões religiosas e muitos outros instalam-se numa completa indiferença.
O apelo à evangelização, ou seja, ao anúncio de Jesus Cristo ressuscitado, avalizado pelo testemunho dos crentes e das comunidades, é hoje a grande urgência que se põe à Igreja. O que exige que esta, pelos seus responsáveis, saia de si mesma, da frieza dos princípios que propugna, da sua linguagem hermética, das leis e normas que abafam a lei fundamental do amor a Deus e ao próximo, da sua altivez e sobranceria por se esquecer das suas debilidades históricas e se julgar impoluta. Exige que o clero deixe de se considerar uma classe privilegiada e se assuma como servidor do povo cristão, como educador da fé, como acolhedor permanente de todos nas suas alegrias e tristezas, sem privilégios de classe de que os outros não gozam, livre para anunciar e testemunhar, comunicador aberto e simples da Palavra de Deus, conhecedor da casa dos pobres e dando-lhes prioridade na sua vida e ação.
Quando apreciamos casos concretos de abandono da Igreja, raramente não aparece uma má relação com o padre ou com a gente do templo. A casa do Pai, de portas tão abertas como o Seu coração, onde se é acolhido e respeitado com amor e alegria, não é sempre a imagem que passa, nem a realidade que se vive. A Igreja não é uma mera organização religiosa, nem muito menos um repositório de normas, muitas vezes pensadas e forjadas para defender um sistema. Porque é casa de Deus, não é feudo de ninguém. É uma família a que deve ser gostoso pertencer e a que a fé comum dá força para enfrentar as situações dolorosas que se deparam no seu seio, como no de qualquer família, onde todos se estimam e amam. Sem este clima, não é possível a evangelização dos adormecidos, ou dos que se fecharam nos seus preconceitos e queixumes, muitas vezes legítimos.
Exortações podem ser palavras vãs que não chegam, nem acordam os que mais precisam, sempre que não comportam, em seu favor, as exigências práticas da verdade que se anuncia, do Jesus Cristo que se propõe, da vida nova vivida pelos anunciadores, que é fruto de uma fé adulta, vivida, professada e testemunhada.




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