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A (última?) surpresa do Papa

1Neste tempo em que quase tudo está previsto, ainda há acontecimentos que nos espantam e pessoas que nos surpreendem. A renúncia do Santo Padre não é caso único na história, mas, nos últimos seis séculos, é facto inédito. Com efeito, em muitas centenas de anos, é a primeira vez que um Papa anuncia a data do fim do seu ministério.

2. É muito sintomático que uma pessoa tão cerebral se revele também uma pessoa tão sensível. Mas se repararmos, os momentos principais da sua vida foram marcados por uma intensa sensibilidade.

João António Pinheiro Teixeira
17 Fev 2013

Em 1981, foi sensível ao apelo de João Paulo II e veio para Roma. Até 2005, manteve-se sensível ao mesmo João Paulo II, que não atendeu aos seus pedidos para se retirar. Em 2005, voltou a ser sensível ao colégio dos cardeais que o elegeu Papa. Agora, mostra-se sensível a si mesmo, à debilitação progressiva das suas forças.

3. As atitudes de João Paulo II e Bento XVI parecem diametralmente opostas, mas, a bem dizer, estão intrinsecamente ligadas.
O elo de ligação está na mesma fé e em igual amor à Igreja.

4. Foi por amor à Igreja que João Paulo II entendeu permanecer até ao fim. Foi por amor à Igreja que Bento XVI decidiu sair antes do fim.
João Paulo II optou por confiar naqueles que trabalhavam com ele. Bento XVI optou por confiar o trabalho a outro depois dele.

5. João Paulo II entendeu apagar-se à frente de todos. Bento XVI decidiu retirar-se da frente de todos.
João Paulo II expôs-se até quando se apagava. Bento XVI quer retirar–se antes de se apagar.

6. Neste sentido, não é correcto dizer que João Paulo II ficou apegado ao lugar nem que Bento XVI optou por abandonar a missão.
Afinal, trata-se da mesma leitura crente da realidade. Sejam quais forem as nossas opções, é sempre Deus que conduz a história: antes de nós, connosco e depois de nós.

7. Bento XVI tem inteligência, lucidez, coragem, obra feita. Só não teve imprensa favorável.
Nunca foi – nem procurou ser – mediático. A imagem que dele criaram não corresponde ao que ele é.
O presente não tem sido justo para com ele. Mas estou certo de que o futuro lhe fará justiça. Este Papa sempre preferiu a luminosidade das profundezas às fugazes luzes da ribalta!

8. Mas – atenção – o Papa vai cessar este ministério, mas não vai deixar a missão. Pretende continuar a servir a Igreja «com uma vida dedicada à oração».
E assim se faz história uma vez mais. Tudo começa na oração. Tudo deve decorrer na oração. Tudo há-de ser reconduzido à oração.
A oração é o berço, o alimento e o corolário da missão.

9. Este recolhimento não traduz, por isso, uma desistência. Traduz, sim, um acto de confiança.
Significa acreditar que, no fundo, é Deus que guia o Seu povo. Nós somos os Seus instrumentos, a Sua voz, as Suas mãos, os Seus pés!

10. No entanto, só pessoas verdadeiramente grandes são capazes desta compreensão. E de gestos com esta dimensão, com esta nobreza, com esta humildade.
Por isso e por tudo (que é tanto), muito obrigado, Santo Padre!




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