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A profissão da ignorância

Conta-se que, um dia, o Rei D. Carlos negou um visto a um embaixador da América Latina, por o seu nome ser Porras Y Porras. E justificava-se o Rei: “não é pelo facto de se chamar Porras, mas sim por ser Porras a dobrar”. Assim, com base nas porras temos de concordar que vivemos com numerosas e diferentes porras por resolver. Por ser assim, há dias, uma deputada estrangeira, no seu parlamento, ironizava e ria dos portugueses por serem pouco politizados e atrasados, pois até “votam sempre nos mesmos dois partidos políticos, sabendo que são mentirosos e que sacam a quem trabalha o fruto do seu trabalho”.

Artur Soares
15 Fev 2013

Tal ironia, riso da deputada e afirmações, significam acreditar que o povo português é ignorante ou tem pouca cultura política, entre outras. De certo modo dou razão ao testemunho da senhora, uma vez que existe falta de cultura em Portugal, sobretudo nos assuntos de mais valor e de interesse absoluto da sociedade. Sabe-se bem que duma ponta a outra do país, desde que haja barriguinhas assadas na brasa, vinho, cerveja fresca e futebol, milhares e milhares dispensam o saber.
O português dito pobre, o despreocupado com o dia seguinte e aquele que desconhece onde estão os filhos à hora da refeição ou do deitar, vê os problemas (as porras) resolvidas numa boa tigela de tinto.
Todavia, vai ouvindo dizer que temos governantes submissos e que não resolvem o futuro da sociedade. Mas não pensa nem se preocupa com as responsabilidades que devia ter, com o que pretende ser, para onde caminha e muito menos sabe o que quer da vida. Trabalha muito e duramente se necessário, mas foge do combate como elemento da comunidade que é. Deixa-se enrolar, como a galinha não voa, e demite-se (sempre que pode) à sombra da tigela que ama.
Ignorância diferente têm os políticos e os ricos, de que nos fala o Evangelista S. Marcos no Capítulo 10, 25: trabalham pouco, fiscalizam muito, fazem imensas contas e reuniões, levam vida extravagante e de luxo, não olham a despesas, inventam taxas e impostos contra quem trabalha, desconhecem a fome e a vergonha de tantos e cada vez mais arrotam a lagosta e a uísque. Ignoram como se deve plantar uma árvore ou quando se devem colocar as sementes na terra. Tantos destes nunca viram uma vaca ou uma ovelha a pastar, nem viram ainda um carro-de-bois a transportar a palha ou o estrume que vai adubar as terras. E todo este género de ignorância stressa-os, imprime-lhes o medo de viver, tornam-se inseguros, desconhecem como se busca a felicidade, desconsideram os seus colaboradores (trabalhadores) e infligem aos outros o alimento de mortas e safadas promessas, as quais nunca causarão a indigestão.
Foi este género de ignorância ou de esperteza bacoca que há quarenta anos atrás se dizia que certos políticos comiam criancinhas ao pequeno-almoço, quando na verdade estes (atuais) ricos do Evangelho, não comendo criancinhas ao pequeno-almoço, comem o pequeno-almoço e o almoço de milhares de criancinhas.
A chamada classe média portuguesa – se é que existe – também sofre de outra ignorância, quando se constata que sentem ser mau negócio produzir em Portugal. Há que “cavar” – dizem – e os que ficam serão um “bando de nabos”. Argumentam o medo do futuro, o medo dos estrangeiros que nos cadeiam, o medo da incompetência pelo zelo da economia nacional, e argumentam ainda que o país não apoia o trabalho devidamente qualificado, pelo miserável salário que oferecem.
Também entendo e aceito que o estudo ou a sabedoria não são a coisa mais fina e importante do mundo, uma vez que o mais importante será sempre o sentimento, a delicadeza, a generosidade e a solidariedade.
A deputada estrangeira, antes de se dar ao trabalho de ironizar e rir da cultura dos portugueses, se tivesse dado uma volta pelo seu país, com certeza que ficaria calada e era mais uma porra a resolver.
Todavia, sou dos que pensam que é preferível sermos salvos pela crítica do que sermos arruinados pelo elogio.
Mas que a profissão da ignorância é um flagelo, é verdade. E quem desconhece a própria ignorância e não se dá ao trabalho de se comparar… esse, é um monte de carne e ossos na vertical.




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