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O exemplo de Bento XVI

1 Suponho que toda a gente foi surpreendida com a notícia divulgada no dia 11 da resignação de Bento XVI no próximo dia 28. Compreendo a decisão de Sua Santidade. Respeito-a. Admiro o seu gesto e louvo-o por isso. Agradeço a Deus ter-lhe dado a graça de tomar consciência das suas limitações e criar as condições necessárias para que outro exerça as funções que se sente impossibilitado de desempenhar como entende que deve ser. Louvo o Senhor pelo trabalho que realizou e peço ao Espírito Santo que ilumine aqueles sobre quem recai a responsabilidade de escolherem o novo Papa. 

Silva Araújo
14 Fev 2013

2. Saber sair é uma virtude. Sair no momento próprio. Sair sem esperar que o empurrem. Sair antes que, dadas as limitações que sobrevêm, se contribua para ser um peso morto ou para desfazer o muito que de meritório se fez.
Com a decisão de resignar Bento XVI mostrou possuir também essa virtude.
Reconhecer as próprias limitações só enobrece a pessoa.
 
3. Vejo na atitude de Bento XVI uma lição para quantos se apegam demasiado aos cargos de tal modo que querem partir amortalhados neles. Para quantos se julgam insubstituíveis. Para quantos não reconhecem que o seu tempo passou. Para quantos não têm a humildade suficiente para descerem do pedestal a que pelos seus méritos subiram ou em que os puseram.
É um bem para a comunidade haver responsáveis que, conscientes de terem feito o que podiam e sabiam fazer, saem pelo seu pé e deixam campo aberto para que outros deem continuidade ao trabalho realizado. A vida é como uma corrida por estafetas. É preciso, no momento próprio, saber entregar o facho.
 
4. Quando as pessoas não têm a lucidez bastante para reconhecerem que não são capazes de exercerem cabalmente as funções que lhes foram confiadas, o bem da comunidade exige que quem tem o dever de as convidar a cederem o lugar o faça. Que quem tem o dever de as substituir as substitua. Com humanidade, com sensatez, mas também com a indispensável firmeza.
É inadmissível que – por um mal entendido sentimento de compaixão, por compadrio, por partidarismo, por amizades pessoais – se mantenham em lugares de responsabilidade pessoas que se mostraram inábeis para o desempenho das funções que lhes foram confiadas. É inadmissível que a comunidade tenha de suportar o preço de teimosias, de casmurrices ou de interesses meramente pessoais.
Isto não significa que as pessoas a substituir sejam inúteis. Isto não significa que sejam incapazes de servirem a comunidade. Até pode ser que noutras funções façam um belíssimo trabalho. Mas que se ponha o homem certo no lugar certo. Que se não teime em manter como ponta de lança quem, podendo ser um belíssimo guarda-
-redes, é incapaz de alvejar a baliza adversária. E há comunidades a sofrerem a falta de coragem de quem, devendo fazer as aconselháveis substituições no momento oportuno, as não faz.
 
5. O desapego que Bento XVI manifesta, na consciência de ser instrumento de Deus ao serviço da Igreja, fez-me pensar no espernear de uns tantos que, porque pressentem fugir-lhes o que consideram ser fonte de benesses e de prestígio, tudo fazem para se manterem nos cargos, instrumentalizando pessoas e procurando inviabilizar reformas mais que aconselháveis pela defesa do bem comum.
Fez-me pensar nas habilidades a que se recorre para, na minha perspetiva, fintar as leis de limitação de mandatos, como se houvesse pessoas cuja vocação é unicamente a de serem presidentes ou diretores disto e daquilo.
Fez-me pensar no barulho que algumas pes-
soas fazem quando, em nome do bem comum, se procede à sua aconselhável substituição.
Quando, em vez de servir, se procura o tacho e o penacho…
 
Até com a decisão de resignar Bento XVI se revela como mestre.




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