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Um olhar em redor

Camilo José Cela, Prémio Nobel da Literatura em 1989, entretanto já falecido, afirmou um dia: “Escrever é uma arte individual, rigorosamente individual”. Assim sendo, todos somos diferentes uns dos outros ao manejar com maior ou menor destreza a nossa soberba língua materna, fazendo-o sempre em função não apenas dos conhecimentos que possuímos (vulgo cultura literária ou preparação específica para o efeito) mas, essencialmente, libertando essa capacidade inata que consiste em saber transmitir aos leitores as emoções sentidas por quem escreve.

Joaquim Serafim Rodrigues
13 Fev 2013

Sem isso, sem esse dom, não há léxico que resista, nem vocabulário que leve seja quem for a concluir a leitura de um texto confuso, mal composto, pretensioso, no qual o seu autor use e abuse de um tipo de linguagem abstracta ou por demais hiperbólica, ou seja, empolando e complicando aquilo que pode ser dito de um modo simples, transparente, mesmo que se procure evidenciar um certo nível de erudição, mas apenas em consonância com o tema versado – só isso.
Gostamos, pois, de ver a nossa formosa língua falada ou escrita naturalmente, sem floreios descabidos nem frases arrevesadas (ou falsa retórica). Quando tal se consegue, a leitura torna-se mais atraente, podendo, até, transformar-se num exercício mental proveitoso e reconfortante. É que quem lê gosta de sentir, de “viver” sem esforço aquilo que os outros escrevem e lhes propõem, sendo mister que os não desiludam nem desmotivem com tiradas inúteis de todo, fastidiosas enfim.
Um trecho bem escrito deve soar aos ouvidos de quem o ler exactamente como as notas musicais, de uma boa partitura, pois nesta existe igualmente, ou deve existir sempre, cor, animação, luz, movimento e, sobretudo, harmonia em toda a sua construção de modo a provocar as emoções desejadas – sejam de alegria, tristeza, angústia, meditação, perplexidade, exaltação, tranquilidade, arrebatamento.
Todos estes sentimentos podem ser experimentados mediante a descrição fiel e apropriada dos mais diversos quadros, factos ou situações. Dou só esse exemplo: face ao tempo rigoroso que se tem feito sentir, arrefecendo corpos e almas, imagine o leitor os rios transbordando dos seus leitos e arrastando tudo em fúria, por entre as chicotadas temerosas da chuva!
Dessa mesma chuva torrencial magistralmente evocada na obra de Tchaikovsky denominada “Sinfonia Patética”, terrível e comovente ao mesmo tempo: a água caindo inicialmente sem muita força através dos murmúrios do piano, os violinos respondendo, soluçantes, apoiados pelos sons graves dos violoncelos, enquanto os contrabaixos, mais graves e profundos, vão prenunciando a tempestade ameaçadora, consubstanciada também nas intervenções sufocadas dos
oboés e dos fagotes, até se concretizar por fim numa autêntica explosão dos diferentes metais, no estrépito dos trombones, das trompas e dos trompetes. A força enorme, incontrolável da Natureza em revolta – chuva diluviana, relâmpagos, trovoadas estrondosas de mistura com rajadas de vento, desprendendo-se, libertando-se indomável de todo o conjunto orquestral, mediante um crescendo alucinante, aterrador.
Terei conseguido, porventura, alcançar o meu objectivo, ou seja, demonstrar a força e, bem assim, a expressividade da palavra escrita uma vez convenientemente utilizada? Caberá ao leitor apreciar e decidir, absolvendo-me, espero, se é que o desiludi desta vez…




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