Fotografia:
Se…

Se eu conseguisse olhar para ti e não te ver, apesar de clamares bem alto a minha atenção, e não sentisse o cheiro putrefacto da pestilência a que te devotaram, pela humilhação. Se eu não sentisse, como tu, o arrepio da indignação ainda contida pela desdignificação permanente a que te sujeitam mas sem contudo olhares o chão. Se eu tivesse o despudor, moral e intelectual, de te marcar com a tatuagem indelével do definhamento social e psicológico que, não sendo nazi, é igualmente segregadora e mutilante pela desumanização que comporta.

A. Gradim Rocha
12 Fev 2013

Se eu, no meu ímpeto agiota, fosse capaz de não discernir que o meu lucro exorbitante advinha do teu empobrecimento paulatino e cruel e que só empobreces porque a ganância do poder económico, político e social – que eu partilho com os meus pares – me induzia a cifrar-te ao invés de te reconhecer o nome.
Se eu fosse epífito o suficiente para, no meu parasitismo, ignorar que te ofendo quando te refiro como exemplo de que a míngua que te corrói pode ser aumentada e disseminada por outros que, como tu, tiveram o infortúnio como companheiro de percurso.
Se eu me deslocasse em automóveis de luxo, para espaços de luxo e onde o luxo é anfitrião, e ousasse dizer que, ao ver-te estendido nos teus cartões rasgados a que chamas cobertores, desgrenhado pela fome, pela sujidade e pela miséria, tu ainda suportarias descer mais fundo.    
Se eu, aromatizado pelo meu perfume de marca, camuflado na minha ausência de marca pela marca do fato que me camufla, quando degusto um vinho velho ou quando saboreio um jantar gourmet e, mesmo quando os defeco, ao utilizar as toalhas ou papéis humedecidos que exalam aromas exóticos, não fosse capaz de avaliar o recorrente cheiro escatológico que olfatizas como punição pela tua desgraçada sina.
Se eu me sentisse tão distanciado de ti que tivesse como garantida a impunidade face às autoridades vigentes e, com a chancela de democráticas, pelo insulto público e publicado que, na minha verborreia acéfala, preconceituosa e arrogante, te dispensei, eu mudaria de nome e de apelido.
Escolheria Ulrich como apelido, por me fazer lembrar a nua e fria paisagem alemã de Hamburgo onde, em 1903, surgiu o primeiro clube de naturismo do mundo, situado junto a um lago formado pelo rio Alster, a sul da cidade. No decurso da segunda guerra mundial, as pessoas também se despiram para outros banhos, não no lago mas, infelizmente, no campo de concentração nazi de Neuengamme.
A escolha do nome não seria imperativa mas recairia num começado pela letra efe, depois de ter eliminado Felisberto, Fagundes, Felismino e outros, por ser indicativa de um perfil de pessoas românticas e com muito amor para dar, divertidas e que desejam que todos gostem delas, não se poupando no seu jeito gentil e simpático. Inclui também pessoas que gostam de ser o centro das atenções e que buscam apenas o melhor da vida e que na sua visão será dinheiro, poder e sucesso. Mas, o fator determinante seria o facto de ser indiciadora de uma particular sensibilidade dos seus titulares face à visão de uma criança, mesmo que desnutrida…




Notícias relacionadas


Scroll Up