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Aqueles que “Abril” deixa ao relento

A solidariedade humana, sempre que tem sido posta à prova entre nós, tem obtido verdadeiras ondas de generosidade popular. E têm sido inúmeros os apelos à mobilização dos portugueses para o voluntariado, a que estes têm correspondido positivamente, saindo da letargia do sofá, numa interação com as instituições que trabalham no terreno, adaptando as suas actuações às novas vicissitudes do nosso mundo. Pelo que vai sendo no pleno exercício dessa partilha, para com os outros, que se vão conhecendo de perto as misérias humanas, e sempre que novas situações surgem, devido às transformações constantes no tecido social, de que resultam as fragilidades nas relações humanas, familiares, conjugais, velhice, abandono, desemprego ou exclusão social, é no seu contacto que vão surgindo as respostas, se não imediatas, pelo menos em tempo útil, para minorar o seu sofrimento.

Narciso Mendes
11 Fev 2013

Várias e meritórias obras, instituídas no país, existem para dar sustentabilidade ao apoio prestado nesta área. No entanto, muito urge ainda ser feito, para procurar dar cumprimento ao preceito, a meu ver, mais importante da Lei de Deus e, quiçá, o mais ausente do cumprimento na humanidade, o qual se traduz em “amar o próximo” como a nós mesmos.
Vai neste sentido a mensagem do Papa Bento XVI para a próxima época Quaresmal, onde afirma que “a «caridade« é a marca mais importante da fé católica, mas em que as obras nunca deverão substituir a fé, nunca a confundindo com «ajuda humanitária» ou «activismo moralista» ”.
 Procurando ajudar o irmão que sofre, a Igreja Católica tem sido um pilar, fundamental, na congregação de esforços para prosseguir na tarefa de ajudar a superar as dificuldades com que se deparam aqueles que se encontram numa encruzilhada das suas vidas. E, para além do apoio espiritual, são saciados com os bens essenciais à sua sobrevivência, graças à recolha de dádivas que os seus fiéis, generosamente, doam aos organismos representativos destas causas.
Já em tempos mais remotos, as Conferências Vicentinas, a par das Misericórdias, que me recorde, eram as únicas a colaborar no amparo aos mais necessitados. Tempos esses de muita pobreza onde, apesar disso, se viam como mendigos apenas pessoas alcachinadas pelo peso da idade, as quais, sem reforma, sobreviviam de esmolas. Porém, hoje em dia, gente bem jovem há que deambula de mão estendida, repleta de vida e saúde, que vai procurando não só matar a sua fome de alimentos, como também a dos seus vícios, mas que o não devemos ignorar.
 Outrora, raramente se viam pessoas a dormir nas ruas, para o que haviam os albergues e asilos, formas rudimentares de estalagens, que as alojavam. Projectos embrionários que, se hoje desenvolvidos com cariz actual, remediariam a situação.
É confrangedor que, com tanto desenvolvimento de tudo, se encontrem pelas ruas, mal iluminadas, “encartonados”, sem um banho, uma muda de roupa e uma sopa, quentes, bem como uma simples tarimba para repousar do desgaste psicológico, seres humanos ao frio da noite.
 Como afirmava o senhor Bispo Auxiliar de Braga D. Manuel Linda, numa homilia, “estamos numa sociedade da cultura da posse, a qual vai permitindo que a Segurança Social e a Justiça estejam a regredir”. Mas eu acrescentaria: uma sociedade consumista e materialista, em que se gastam horas a fio a discutir o que alguém poderá fazer por nós, em vez do que poderemos fazer pelos outros; num mundo em que só o que sobra chegava para sustentar outro. Ou seja: o que está para além da riqueza que é desperdiçada em futilidades, luxo e ostentação, daria para resolver o drama dos sem-abrigo.
 Entretanto, indiferentes, vamos consentindo que pessoas, com corpo e alma, passem as noites da democracia de Abril ao relento, enquanto a muitos canídeos lhes é facultado um lar e até mesmo a justiça.




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