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A frase assassina

Dizia o meu livro da quarta classe que “palavra fora da boca é pedra fora da mão”. A palavra que sai da boca, quer em linguagem corrente, quer em linguagem política, tem como pressuposto um alvo. É vetorial. A frase assassina tem a força do aríete porque bate com força numa porta rude e nela abre brechas e derruba ferrolhos. A frase assassina a que me refiro foi dita por Luis Marques Mendes na TVI24 no dia 31 de Janeiro pelas 22h30m: “ser socrático não é currículo, é cadastro”.

Paulo Fafe
11 Fev 2013

É uma frase que contém uma teoria de conhecimento que emerge de factos observáveis e abre o diálogo às diferenças de opinião e simultaneamente se impõe como uma evidência. É assassina porque resume bem, e de uma maneira até hoje ainda não dita, da dificuldade que o PS tem em engolir o passado recente do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Qualquer estratégia de desconstrução desta frase impugnará justamente esta decisão de assunção de um passado recente e o desejo intrínseco de um divórcio desejado por aqueles que estiveram, e  sonham estar, com José Sócrates no governo.
Não julgo esse governo, estou apenas a analisar a frase e o seu cunho matador. Não se trata de uma frase metafísica, nem um jogo de palavras ou aproveitamento habilidoso semântico; transitou, logo que dita, duma linguagem política para uma linguagem corrente. Tornou-se popular, logo repetível como ecol. Ocultamente os espíritos a assumem por inteiro, dão-lhe foros de sua apropriando-se dela, a divulgam como verdade, a implantam nas consciências, apesar da autoridade da sua reflexão que ao decidir sobre os conceitos. Tornou-se conhecimento. Quando tal acontece a linguagem política desaparece para só existir a linguagem corrente.
Imaginemos que os políticos eram capazes de falar em linguagem corrente! Os discursos recairiam na rua como cantigas populares, andariam de boca em boca, todos os compreenderíamos porque os discutiríamos, relegando as problemáticas filosófico políticas para o conhecimento daqueles que as dominam. Nós sabemos que os raciocínios se conduzem sempre deduzindo do significado os elementos componentes.
O carater matador da frase pronunciada por Marques Mendes situa-se na dedução dos factos produzidos pelos elementos componentes da governação de José Sócrates. Estamos longe de aceitar que a dedução seja verdade universal, nem nunca uma verdade terá essa universalidade. Mas o que é inegável é que quem quer negar José Sócrates será obrigado a mudar de método de esquecimento do passado, garantindo previamente, de uma forma que evoca o mecanismo freudiano da denegação.
Dir-me-ão: mas estas coisas são tão elaboradas que são pertença de quem?  De todos, porque os mecanismos do conhecimento não pedem autorização aos certificados académicos para os assumir e compreender, absorvem–nos com a facilidade de uma esponja  que, por ser naturalmente absorvente, nem parece uma coisa osmótica.
Não se percebe por que razão os socialistas não assumem de vez que o governo de José Sócrates não correu bem! Se tal assumissem publicamente acabava-se-lhes o sofrimento de o estarem a suportar diariamente. Culpa confessada é culpa desculpada! Outra coisa que não se entende é por que teimam os socráticos em aparecer quando deveriam desaparecer. Quem desaparece esquece; com a sua presença, estão constantemente a lembrar o passado que não é, nem nunca será considerado uma coisa para louvar.  Benefício é para os outros que não para o PS. Há coisas que a gente não entende a não ser do foro da afirmação pessoal a qualquer custo. E o partido?




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