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Um sentimento pouco habitual

Quando João Paulo II pediu desculpa dos erros e desvios da Igreja ao longo da história, não faltou gente a dizer que foi um gesto perigoso, pois, desse modo, estava a dar motivo para novos ataques por parte dos seus inimigos. O mesmo aconteceu com Bento XVI ao sentir-se humilhado publicamente e indo ao encontro das vítimas dos crimes de pedofilia, cometidos por gente da Igreja e em instituições a ela ligadas. Hoje já aparecem bispos a reconhecer que o afastamento da Igreja se deve ao facto da pouca formação recebida e da falta de sentido de pertença ao povo de Deus por parte de gente que andou anos e anos pelos templos e se foi empobrecendo na sua fé.

D. António Marcelino
10 Fev 2013

Este sentimento de culpa não agrada aos que continuam marcados pela velha apologética, para a qual a Igreja é impoluta e tudo nela tem justificação ante as críticas, juízos e atitudes de quem vive fora e lhe quer mal.
Já no Concílio Vaticano II foi difícil, pelo peso de uma tradição que mais pensava no prestígio institucional, reconhecer os pecados da Igreja, passados e presentes, não entrando no documento final sobre a Igreja, a expressão “Igreja pecadora”, que foi substituída por uma outra mais suave, “Igreja santa, mas sempre necessitada de purificação”. Mesmo assim, ainda há quem reaja a esta confissão pública, mais lhe agradando dizer-se “Igreja santa e povoada de santos”.
A primeira condição para uma renovação, pessoal e comunitária, é reconhecer que nem tudo na Igreja, a todos os níveis, pessoais e institucionais, esteve ou está sempre bem, sentimento acompanhado de uma vontade séria de entrar no caminho do Evangelho, que é para o cristão o caminho da verdade a seguir e a professar. Em linguagem mais exata dir-se-á vontade de conversão a Cristo e ao seu projeto salvador. Um caminho sempre possível, porque Ele mesmo o andou e o apontou aos que nele acreditam e O querem seguir livremente.
Não creio que seja alguma vez possível analisar as crises da Igreja sem procurar as suas verdadeiras causas. São muitas as crises que se enfrentam hoje: crise de fé de muitos batizados, de diálogo no interior da comunidade eclesial e com a sociedade, de presença apostólica na sociedade, de vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada por amor ao Reino, crises das famílias e dos jovens e de credibilidade num mundo cada vez mais atento e crítico…
A Igreja tem de procurar as causas dentro de si própria, no seu agir diário, nas prioridades que dá à sua ação, nos objetivos que persegue em virtude da sua missão, na formação que ministra aos mais responsáveis, no esforço de atualização ante as mudanças sociais e culturais, na falsa conceção de que a catequese é para os sacramentos e menos para a vida cristã. Sempre consciente de que o que determina a sua vida é força que leva consigo. Fora dela apenas encontra condicionamentos e interpelações que não a deixam nem adormecer, nem instalar.
Não será fácil encontrar na história uma instituição religiosa que, a nível mundial, conte ou tenha contado para a realização dos seus fins, com um tão grande número de gente generosa, permanente ou voluntária, com tantas possibilidades de agir livremente, com tantos meios de formação acessíveis. Porque se chegou, então, ao século XXI, em países de tradição cristã, a uma tão grande debilidade da fé e do sentido de pertença, a um individualismo corrosivo, sempre em crescimento, a uma manifesta desafeição pelo trabalho pastoral programado e realizado de modo orgânico e em conjunto, a um predomínio de clericalismo serôdio e
doentio, a uma atitude pouco sensível à presença apostólica em campos de fronteira, a uma alargada dificuldade no acolhimento e no trabalho com os leigos, a uma tentação do vistoso em detrimento do essencial, a uma difícil compreensão de que a Igreja, por natureza e por missão, é pobre e para os pobres, a um medo de os jovens batizados e confirmados se comprometerem, de modo definitivo e permanente, tanto no matrimónio, como em formas de compromisso, por inteiro, à missão evangelizadora?
Se não se reconhecer o caminho aberto e pastoralmente urgente para uma renovação, séria e consequente, a operar em tempos difíceis como os atuais, o retrocesso é inevitável e a debandada não parará. Não falta gente capaz que todos os dias se gasta generosamente. Não falta a certeza de que Deus está empenhado nesta causa. Falta talvez a confissão das culpas e o propósito sério de prosseguir. Mas isto tem a ver com toda a Igreja, sem que desta missão alguém se possa escusar.




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