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O que é a enurese (2)

Analisadas algumas características da enurese, a pergunta que se nos põe é: então, qual será a causa (ou etiopatogenia) da enurese? É difícil responder à pergunta, porque aparecem muitas causas possíveis, mesmo depois de a ciência já ter eliminado várias causas antes consideradas possíveis, como a heredo-sífilis, teorias endocrinológicas vagas, spina bífida oculta banal, modificações dos constituintes da urina (alcalinidade ou acidez)… Nas actuais circunstâncias, pode-se descrever a enurese, mas não se pode definir uma causa unívoca da enurese.

M. Ribeiro Fernandes
10 Fev 2013

1. Uma das causas possíveis, a que se continua a dar bastante importância, é o perfil de personalidade da figura materna e o modo como ensina ou impõe à criança o controle da micção. Sabe-se que o controle da micção não é apenas mecânico, com o pressuposto da maturação nervosa e percepção consciente dessa mecânica, mas que se desenvolve sobre a base de uma aceitação activa ou de uma aceitação passiva imposta pelos pais, em função do seu entender e de normas sócio-culturais.
2.A aquisição deste controle não é apenas uma questão de maturação nervosa, uma vez que essa maturação dá apenas à criança a possibilidade de se controlar e não o acto de se controlar. O controlar-se é um acto pessoal assumido como resposta à solicitação parental. Sendo assim, o controlo do esfíncter pode ter sido assumido activamente ou apenas por medo. E isso, na prática, pode fazer toda a diferença. É por isso que a evolução que se vai fazendo depende muito da qualidade da relação parental, nomeadamente com a figura materna e com o meio ambiente familiar.
Por exemplo, se uma mãe tipo neurótica exige da criança a limpeza de uma maneira rigorosa, intransigente, às vezes mesmo obsessiva, pode resultar daí uma luta entre a criança, que reivindica a sua autonomia, e a mãe que quer a obediência necessária às regras do asseio. E esta obediência assim obtida por medo, passiva, não assumida ou mal assumida, será sempre muito precária e condicionada á presença ou ausência da mãe. Afastada a mãe, pode quebrar-se esta disciplina fragilmente interiorizada e dar-se a regressão, devido a qualquer factor perturbante.
3. É com base nesse pressuposto que se admite que os traumatismos psíquicos ou as discordâncias e conflitos do meio familiar podem desempenhar um papel desencadeante ou agravante da enurese. Por exemplo, em casos de decepções emocionais, de separação dos pais, de despertar de interesses sexuais, de descobertas sexuais desequilibradas…
4. Os freudianos insistem muito na importância do desenvolvimento afectivo da criança e estão convencidos que os factores emocionais podem ser, de longe, a principal causa da enurese, considerando irrelevantes os factores físicos. Assim, a enurese primária poderia acontecer mais por defeito de aprendizagem, por reacção da criança contra atitudes coercitivas, por falta de organização ligada ao desenvolvimento da criança num meio conflitual. O sintoma podia ser utilizado como satisfação regressiva, quer para obter benefícios secundários de ordem afectiva, quer como expressão de mal-estar e de oposição. Já a enurese secundária estaria mais ligada a factores perturbantes.
Mas, há outras hipóteses explicativas, mas que não vale a pena aqui desenvolver.
5. Uma vez que não se conhece uma causa unívoca da enurese, torna-se quase impossível traçar um perfil da enurese em geral, o que implica que cada caso tem de ser estudado de forma contextualizada e individualizada. Feito o diagnóstico diferenciado, deve-se estabelecer também um plano terapêutico adequado e individualizado, em colaboração com a família, especialmente com a figura materna.
No entanto, há autores que admitem que, de algum modo, se pode encontrar um perfil psicológico da enurese. Nos casos que segui e que, depois, estudei, foi encontrado um perfil semelhante ao apresentado por esses autores. Ajuriaguerra tem uma opinião diferente e diz que, nas actuais circunstâncias, não é rigoroso que se possa estabelecer um perfil psicológico do enurético. No entanto, Loosli-Usteri avança que os enuréticos são mais do tipo introvertido.




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