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Máscaras e foliões

Pode não parecer, mas todo o homem gosta de sair da rotina. Uns mais que outros. Mas há necessidade de variar, de modificar hábitos, de melhorar, e até aqueles que usam e abusam de mudanças gostam de as viver nem que seja por uns minutos ou dias. E é no início de cada ano que o povo inicia a saída da rotina: começa pela vinda do Carnaval; da Páscoa a seguir; pelos santos populares; férias e Natal. E com base nestes tempos em que o cristianismo está (quase sempre) por trás ou na base de toda a mudança, sai-se da monotonia.

Artur Soares
8 Fev 2013

Nós por cá vivemos o Carnaval no tempo invernoso. E nele usam-se máscaras para divertimento: a correr, a saltar, a dançar, bailar, foliar e tudo mais que se possa improvisar, com ou sem a máscara. É sabido que no Carnaval do Brasil nem roupa se usa, quanto mais a máscara! Mas neste tempo de frio carnavalesco, por vezes até se vê um ou outro cavalheiro que, desfavorecido sem cabelo aproveita para usar o boné ou o gorro, uma vez que o chapéu praticamente não se gasta. Assim, no Carnaval ainda se anda bem agasalhado, excepto o rosto.
Mas porquê não tapar a cara assiduamente, usando uma máscara forrada com toda a comodidade para o rosto? Penso que a moda deveria pegar, atendendo às vantagens que a máscara oferece.
O povo diz frequentemente: “este tem cara de bardino; de assassino; de doente; de louco”, entre outras afirmações. O povo tem tendência de, pela cara de cada um, lhe parecer tudo menos um rosto humano.
Ora a máscara a ser usada podia ser de harmonia com a personalidade e gosto pessoal: sentimental, alegre, humorista, grave e sei lá mais o quê!
O rosto deve ser das partes mais anormais do corpo. Logo, uma vez que todo o corpo se esconde ou agasalha, a máscara devia usar-se também. Há necessidade de pensar no assunto, pois sabe-se das cenas que se fazem ao ser-se obrigado a dissimular, para que vejam na cara os sentimentos que não se têm. A ser assim, cada um usar máscara todo o ano, facilitava tudo, pois na visita dum amigo no hospital, no funeral, na prisão, numa saudação de circunstância na rua ou numa desgraça qualquer, não seria necessário mostrar-se uma dor ou uma alegria que se não sente. E na verdade, há rostos realmente feios; realmente mortos; realmente com falta de carácter!
É de salientar que os povos mais antigos usavam a máscara para frequentarem os mais nobres ambientes ou salões de bailes; para exercerem actos de feitiçaria; de vandalismo e, actualmente, usam máscaras os assaltantes de bancos e de pessoas, os políticos ao servirem-se da Nação e os foliões do Carnaval, pois ‘tá claro. Repare-se que até tivemos o Profeta Velado do Khorassan, o Máscara de Ferro!
 Como se deduz, a máscara pode usar-se e de harmonia com a alma, mesmo que penada. A ser assim, seria a solução de todas as preocupações e a comodidade de toda a ação teatral.
Elas, as máscaras, deviam fazer parte do roupeiro de casa e serem colocadas antes da saída da porta para serem usadas todo o ano, sem se ter medo de estragar o rosto e recorrer a dermatologistas.
É pena que as nossas televisões e revistas gastem a maior parte do tempo a esmiuçar a vida das pessoas, atirando-as tantas vezes para as valetas ou para a glória social, desmerecidas, e não lancem a campanha do uso das máscaras permanente. Isso sim! Isso era um bom serviço prestado, uma vez que o rosto sem máscara em qualquer canto provoca e coloca o povo a dizer: aqui vai este industrial bem vestido, gordo e com um bom automóvel, mas não paga ou rouba a quem o serve; aqui vai um político, simpático, altruísta, que nunca diz “não” a ninguém, mas é um perfeito sanguessuga; aqui vai uma donzela com um maquinão de quatro rodas, mas ninguém sabe o que faz nem onde passa o tempo; aqui vai um médico ou advogado: um vende abortivos, o outro a língua, mesmo que seja para defender actos ilícitos; aqui vai um agricultor, que não cultiva as terras, mas é useiro e vezeiro em reivindicar subsídios, quer haja seca ou humidade; aqui vai um “gentleman”, bem perfumado, todo-delicadeza, mas diz-
-se que é pedófilo; aqui vai um jornaleiro, convencido que é jornalista e poeta, mas não passa de um mercenário de alguém; aqui vai um gerente ou chefe, mas é espectro acusante, onde tem subido à custa do enterro dos que o rodeiam; aqui vai um casal que irradia felicidade, mas em casa ninguém se entende com “carvalhos, eucaliptos e sobreiros”.
Pelo que defendo – uso da máscara permanente –, creio que não só protegia a cara como a beneficiava e não dava possibilidades ao povão de o rosto ser humilhação para uns e uma ofensa para outros.




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