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A “lição” do esqueleto

Cientistas da Universidade de Leicester, Inglaterra, acabam de anunciar que, após longas e aturadas análises, o esqueleto que havia sido encontrado em setembro de 2012 por baixo de um parque de estacionamento pertence, de facto, ao rei Ricardo III, último monarca da dinastia de York, cuja morte ocorreu em 1485 durante uma batalha contra o futuro Henrique VII.

Victor Blanco de Vasconcellos
7 Fev 2013

Há – dizem os cientistas – total correspondência entre os vestígios de ADN presentes no esqueleto e o ADN de um parente distante, ainda vivo, do rei Ricardo III. A esta correspondência junta-se a circunstância de a datação dos ossos, feita através de carbono, apontar para uma morte ocorrida entre 1455 e 1540 – período que abrange a data em que ocorreu a batalha de Bosworth, que fez terminar a célebre Guerra das Rosas e elevou ao trono a dinastia Tudor.
A sepultura de Ricardo III encontrava-se “perdida” desde o século XVI, depois de a igreja onde repousavam os seus restos mortais ter sido demolida durante a Reforma religiosa ocorrida em Inglaterra.
Ricardo III, que morreu com apenas 32 anos e após uns breves 26 meses de reinado, é tido como o monarca mais odiado de Inglaterra. Alguns historiadores, porém, consideram que o “retrato” feérico que dele se fez ao longo de séculos teve origens e motivações políticas: esse “retrato” negro teria sido forjado por Henrique VII e seus partidários, e ampliado durante os subsequentes reinados dos Tudor, a quem interessava denegrir a Casa de York, dinastia que lhe antecedera na realeza.
Com base nesta última conjetura histórica, não falta quem admita ter sido propositada a demolição da igreja onde fora sepultado Ricardo III: o objetivo último dessa demolição teria sido, dizem, o de provocar a “perda” definitiva dos restos mortais do monarca. Tal “perda” levaria, supostamente, a que a sua “presença” se fosse diluindo nas sombras do esquecimento, perdendo-se no rasto dos tempos.
Se esta versão da história ligada ao desaparecimento dos ossos de Ricardo III for a que mais se aproxime da verdade, podemos então concluir que se enganaram os seus fautores ao julgarem que, assim, fariam evaporar a “figura” daquele monarca. E enganaram-se porque jamais poderiam adivinhar que, quinhentos anos depois, o ser humano – através do ADN – seria capaz de identificar com segurança uma pessoa…
Apagar o passado, fazer desaparecer atos ou omissões, “destruir” a história é cada vez mais difícil. Por isso, os nossos políticos deveriam refletir nesta “lição” dos ossos de Ricardo III. Deveriam lembrar-se, permanentemente, que jamais conseguirão “apagar” da memória coletiva o que fazem ou deixam de fazer, o que dizem ou deixam por dizer. É que, depois, por mais tempo que passe e por mais que tentem fazer evaporar esses “esqueletos”, haverá sempre um qualquer vestígio de “ADN” que os identificará – a eles, aos seus feitos e não-feitos, aos seus ditos e desditos.




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