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O Carnaval e a Quaresma da nossa vida

Se pedisse a mim mesmo para pintar numa tela o rosto cómico do Carnaval, servir-me-ia de pincéis, mergulhados, à maneira, nas tintas da extravagância, do exagero e da camuflagem. Entretanto, avivava-as com uns cambiantes de alfinetadas de apupos, gargalhadas e sorrisos, bem espetadinhos na sobrecasaca de alguma autoridade política, social, religiosa, para diluir na postura dos assistentes, aos magotes, alguns borrões mais carregados e enfadonhos. Mas como é Carnaval, ninguém leva a mal.

Benjamim Araújo
6 Fev 2013

A ladrar às pernas carnavalescas, vem agora aí a bombeira quaresmal, para apagar com a ponta da mangueira penitencial as labaredas destas brincadeiras. Lembro-me de alguns vizinhos meus cobrirem, durante os imperativos da quaresma, com umas panadas de silvas e fetos verdes, a tampa da salgadeira, onde jazia, cortado em pedaços, e enterrado em sal, o porco de cinco ou seis arrobas. Isto era para não dar regalo nenhum nem à vista nem à boca, que os desejava.
Não sei bem porquê, são truques do inconsciente, mas a referência à quaresma abriu-me as janelas da memória para o númeno de Kant, para a corporalidade espiritualizada do nosso ser e, agora, as talhas de vinho nas bodas de Caná, tendo como protagonistas Maria e Jesus, seu filho.
Do âmago da quaresma, vejo jorrar, em impetuosidades dinâmicas, a espiritualidade, que está, como diz Kant, para além da experiência, do tempo e do espaço. É eterna e imensa.
Em Kant, o em si, o inteligível, o espiritual é a alma; em Jesus Cristo, o em si, o inteligível, o espiritual está simbolizado nas talhas de vinho, das bodas de Caná. Para nós, identifica-se com o nosso ser autêntico.
Agora vou deslocar o Carnaval para o fenómeno (Kant), para a nossa vida de todos os dias e para as bodas de Caná, segundo Jesus Cristo.   
O Carnaval, com a sua autonomia desobediente e desrespeitosa, para com o númeno (Kant), para com o espírito (Jesus) e para com o ser autêntico (nós), é comandado e governado pelo autoritarismo da mente. Esta subordina e instrumentaliza, segundo os seus motivos, desejos e aspirações, o fenómeno de Kant, a nossa vida existencial e as bodas de Caná. Para evitar que tal instrumentalização corte a sintonia e conexão da vida existencial com o ser autêntico, vamos submetê-la às forças positivas da peneira clarificadora da análise, do bisturi da crítica libertadora e da inteligente dialética dos contrários. Toda a nossa vida veste-se, da cabeça aos pés, com uma roupagem abotoada de milhares de contrários (paz e desespero; amor e ódio; amigo e inimigo; liberdade e opressão; medo e ousadia; materialidade e espiritualidade). (…) Por imperativo transcendental da unicidade autónoma do nosso ser autêntico, os contrários têm de estar frente a frente, permanentemente presentes, sem a fantasia de entrarem no jogo da competição, do extremismo, da exclusão, da rigidez, da desvalorização. Têm de entrar em diálogo e colaboração para que seja cumprida, em unidade, paz, felicidade, na nossa vida existencial, a vontade do ser, em sintonia plena com Deus.
Do exposto, creio ser este o significado biopsíquico e teológico do Carnaval e da quaresma.




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