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Glutões invadem Braga

Uma enorme praga de glutões invade a cidade. Postados em pontos estratégicos, as estranhas criaturas atacam, sem dó, nem piedade, e sem olhar a nacionalidade, sexo, raça, religião ou idade das vítimas.Assexuados e desprovidos de olhos, nariz e membros, apenas apresentam uma ligeira fenda a servir de boca, por onde são alimentados. Aproximadamente com dois metros de altura, quarenta centímetros de largura e vinte de espessura, estes monstros não sendo carnívoros, herbívoros ou omnívoros, pertencem a uma família de obtusas caraterísticas morfológicas e vivenciais, cujos manuais de zoologia, botânica e mineralogia ignoram.

Dinis Salgado
6 Fev 2013

Dada, porém, a sua condição de criaturas imotas, alimentadas são por quem na tal ranhura pseudobocal lhes introduz uns compostos inorgânicos, de forma arredondada e dimensões variadas. E, provenientes de ignotas paragens, quem sabe se  de alguma inóspita galáxia, para a maioria dos mortais eles aterram na cidade, estranhamente comandados por certos terráqueos, apoiantes da sua ação devoradora que só folga tem durante a noite, aos sábados de tarde, domingos e feriados.
Tal praga, dada a sua insólita forma de proliferação por gestação espontânea, tendência tem para crescer como os cogumelos ou os impostos do ministro Gaspar.
Pois bem, esta pode ser, em breve, uma dolorosa realidade, se o executivo socialista municipal, liderado por Mesquita Machado, acabando de privatizar os espaços de aparcamento pago, levar em frente o maquiavélico propósito de encher a cidade de parcómetros. Diz-se que, muito em breve, se alargará a mais algumas dezenas de ruas, praças e largos. Só para termos uma ideia da sua hipotética extensão imaginemos uma linha que passe pela estação dos Caminhos-de-Ferro, Carandá, Santa Tecla, Guadalupe, Faculdade de Filosofia, Estação de Camionagem e rua da Boa-
vista (Cónega)
Ora, se esta medida rude golpe é para o comércio tradicional (as grandes superficies têm estacionamento amplo e gratuito), os milhares de trabalhadores que diária e obrigatoriamente se deslocam, em viatura própria, para o centro da cidade veem, assim, a sua vida dificultada. E que dizer dos moradores dessas zonas?
Depois, sendo o preço do estacionamento dos mais caros do país e a rede de transportes públicos ineficaz e ineficiente, o acesso ao casco urbano mais problemático fica para a maioria dos bracarenses e dos que nos visitam. O que nos leva a pensar e a concluir que tão drástica medida acaba por estimular o êxodo das pessoas do centro da cidade para as grandes superfícies comerciais.
E, assim, aos títulos de defensor do cimento, do alcatrão, das eiras, das zonas pedonais e do maior túnel rodoviário do país, frequentemente lembrados pela oposição política local, o dinossauro autarca Mesquita Machado poderá, no futuro, juntar o da parcometrização urbana. O que, todavia, em vésperas de abandonar, por força da lei de limitação de mandatos, a presidência de 37 anos da Câmara Municipal, da autorização por si dada a esta trágica investida à bolsa dos bracarenses, em momentos de tão negra crise económico-financeira e social, página negra fará na história da cidade e permite-nos que seja lícito perguntar:
– É bom viver em Braga?
– E lógico responder:
– Só pr’alguns! Só pr’alguns.
Então, até de hoje a oito.




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