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Pequenos tiranos

Os grandes ficaram e ficarão na história. A de Portugal registou alguns. Felizmente, não existem hoje no país outros que tenham estatura bastante para serem lembrados como tais. Não os há por cá e já não nos molestam. Os pequenos é que agora nos provocam e nos perturbam os dias. E desses, há-os e são muitos. Nos mais diversos lugares. Desde as mais altas instâncias do poder a outros cargos da administração. No universo dos tiranos, dos pequenos, que dos grandes a história é mais exigente, uns são mais responsáveis do que outros. Revezam-se na autoridade, uns cedendo lugar a outros, quase sempre a contragosto. Quando estão em lados opostos atacam-se como se só os que estão é que mereçam o epíteto de tiranos.

Luís Martins
5 Fev 2013

O ambiente tem ficado muito embrulhado, sobretudo na última dezena e meia de anos, incluindo os últimos. Novos tiranos, pequenos, é certo, mas tiranos, que só não fazem pior porque não têm experiência. São, contudo, uma ameaça para o futuro, quando a ganharem. Importa não lhes proporcionarmos traquejo bastante.
A vida pública nacional está enxa-meada de casos. Uma tralha de pregadores e recadeiros que custam uma pequena fortuna ao erário público, o mesmo é dizer, aos contribuintes (também aos que são pobres) e que não acrescentam qualquer valor ao serviço prestado. Pelo contrário, grande parte das vezes, prejudicam. Retiram o que há de bom num regime democrático. Descredibilizam-no. E se não houver quem ponha cobro a isso, não tarda e o sistema entra em agonia.

Numa altura em que o dinheiro escasseia – estamos num tempo de vacas magras, magríssimas mesmo, com os ossos a notarem-se por trás da pele – era importante que as coisas de Estado fossem tratadas com sentido de Estado e com respeito pelas pessoas, pelos eleitores. Sou dos que pensam que há um limite a partir do qual nenhum Governo devia aventurar-se sem perguntar à população o que pensa. Há coisas que não podem ser decididas sem discussão prévia e validação pelo povo, mas, infelizmente, isso acontece com alguma frequência. Chamo-lhe tirania, da pequena, porque a grande necessita de outro contexto e de outro regime, o que não é o caso.
Não perdendo de vista o título e o que escrevi até agora, coisa que fiz na última sexta-feira, continuo o texto, já no domingo, depois de cumprir os meus deveres de católico. “Nos tempos de Cavaco Silva e Passos Coelho, que são aqueles em que vivemos, devemos ficar inquietos com o que se passa no país”, digo de cor o desafio deixado pelo Padre Álvaro, assim se apresentou, na homilia da missa das 13 horas na Sé Catedral do último domingo. Aqui estou para fazer a minha parte.
Quem não respeita a vontade do povo não se livra do epíteto do título. E o que se passa no país é grave. Merece, no mínimo, reflexão. Refiro-me a que, apesar de poder ser aceitável sob o ponto de vista legal a panóplia de medidas de austeridade, não o é certamente do ponto de vista social e moral. Ninguém, nem nenhuma instituição, por mais soberana que seja, pode arrogar-se o direito de impor aos outros a sua vontade sem escrutínio.
Ora, não faltam exemplos de ultrapassagem das orientações que os cidadãos conferiram aos seus representantes em tempo oportuno. Desde logo, quando se invertem prioridades, considerando as pes-
soas como meros números e não se atacam na génese os problemas sociais para responder a outros compromissos; quando não há justiça e equidade nas leis e nas decisões; quando se não atende, por distracção ou intenção, a dor e o sofrimento de tantos. Também quando se ataca a Família nos seus direitos e fundamentos, privilegiando o aborto à maternidade ou legislando com prejuízo para as Famílias numerosas. O que começamos por dizer com insistência no tempo de Jorge Sampaio e de José Sócrates, continuamos a dizê-lo nos tempos de Cavaco e Coelho. Não há respeito pela Família.
Volto ao texto de sexta-feira para concluir. Tiranos, há-os em todo o lado. Sentimo-lo. Às vezes, são apenas pregadores e recadeiros, mas isso não importa.




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