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O famigerado acordo ortográfico (III)

Já escrevi neste jornal mais dois artigos sob esta epígrafe, e provavelmente este não será o último, tanto importante é o assunto e tantos novos tristes desenvolvimentos ele vai tendo. O que motivou mais este artigo foram dois novos acontecimentos que se deram, concretamente o facto de o Brasil ter adiado a vigência obrigatória do Acordo para 2016 e o da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) ter anunciado que vai continuar a redigir os seus documentos de acordo com a norma ortográfica antiga. As duas iniciativas são dignas de louvor, e só é pena que não haja outras semelhantes, porque tudo devia ser feito para travar este Acordo sem sentido nem razão de ser.

António Coelho
4 Fev 2013

Em relação ao facto do adiamento do Brasil, declarou o senador Miranda: «O Acordo é uma “colcha de retalhos” e muito confuso». Só Portugal é que continua a pensar que o Acordo é um «vestido» perfeitinho, sem qualquer espécie de «retalho». Segundo o mesmo senador, os professores criticaram o Acordo e fizeram um abaixo-assinado com mais de 20 mil subscritores contra o texto do Acordo. Porque é que em Portugal não há iniciativas semelhantes?
A decisão da SPA é justificada, e bem, por este assunto ainda não ter sido suficientemente resolvido e tudo estar longe de ser esclarecido. Refere-se também à tomada de posição do Brasil, e ao facto de «Angola ter assumido publicamente uma posição contra».
A maneira como este processo foi (está a ser) conduzido, levanta inúmeras interrogações. E a pior das interrogações é, porventura, o facto de o Acordo já estar em vigência obrigatória nos manuais escolares e nos documentos oficiais, sem ele ter sido aprovado e não ter havido um estudo sério sobre várias questões que se põem e sem, ao menos, se fazerem as correções que se impõem. Chama-se isto «pôr o carro à frente dos bois» e motivar que Portugal continue a fazer figura de parvo, em relação aos outros países falantes de Português, nos quais o Acordo ainda não está a ser implementado. São os interesses da nossa língua que estão a ser salvaguardados? De modo nenhum. Só podem ser os interesses políticos e económicos a comandar tudo.
Se o Português já era mal escrito e falado, o Acordo só veio semear mais confusão e provocar o descalabro da nossa língua. Basta ouvir o Português que é falado nos meios de comunicação social, pelos políticos, pelos comentadores de desporto, etc. e ainda aquele que é escrito em livros e jornais. É pavorosa a maneira como a nossa bela e rica língua está a ser assassinada, das mais diversas maneiras.
Como nota final, a subserviência ao Brasil, neste Acordo e nos anteriores, chega ao ponto de muitos suprimirem consoantes que nós pronunciamos, mas como no Brasil não se pronunciam, passam também a não se pronunciar para alguns, contribuindo assim para a deturpação da nossa língua. Incrível, completamente incrível! No Brasil brinca-se com a língua portuguesa, mas não é obrigatório nós fazermos o mesmo… Só como exemplos, já vi escrito: fato em vez de facto, seção em vez de secção, ceticismo em vez de cepticismo, cato em vez de cacto, indenização em vez de indemnização, jato em vez de jacto etc. Só como nota de observação última, queria observar que existem em muitas línguas consoantes que não se pronunciam, mas que têm outras funções, (como acontece no Português), e não fizeram acordos com ninguém para as suprimir…
Desejo, desejamos todos (tirando algumas tristes excepções) que haja neste país responsáveis com coragem para arrepiar caminho, em relação a este desgraçado Acordo que só tem trazido confusões e interrogações, porque representa um atentado contra a nossa língua, dificilmente reparável se não for atalhado a tempo.




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