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A tuberculose e o seu isolamento social

Há um ditado que diz “As boas cercas fazem os bons vizinhos”. As doenças infecto-contagiosas são uma “cerca” especial que não só afastam os vizinhos como não aparecem os amigos. Analisemos, num conceito breve, o que domina a nossa relação inserida num espaço comunitário comparativamente com um outro relacionado com o isolamento motivado pela doença. Os ditados são por excelência um concentrado de ‘factos indiscutíveis’, muitas vezes quase lugares comuns, e este aqui não foge à regra. Mas este não é muito conhecido e o conceito que defende também não é dos mais consensuais apesar de, na minha perspectiva, ser importantíssimo. Foca-se aqui a questão da proximidade e da privacidade.

Albino Gonçalves
4 Fev 2013

Ter vizinhos, viver em grupo, fazer parte de uma comunidade, é um valor apreciado. Claro que há os eremitas, as pessoas que preferem o isolamento, mas são excepções. Em maior ou menor grau, é normal apreciar-se a vida em comunidade, ter-se amigos, parceiros, gente que partilha interesses connosco – vizinhos. Mas… Se é bom ter vizinhos, também é importante ter uma “boa cerca”. Esse é um dos segredos de uma vida social equilibrada. Se a “casa não tem cerca”, se nos amalgamamos com os problemas dos outros, com as suas emoções, as suas vivências, o resultado pode não ser famoso. Conheço algumas pessoas assim. Boas almas, generosas, caritativas, prestáveis. Mas não sabem salvaguardar as distâncias. Acaba por ser mau, não apenas para elas próprias, como afinal até para “os vizinhos”. Acabam por ficar na posse de segredos comprometedores e de contarem coisas que num futuro se podem voltar contra si. Não. Cada um deve ter o seu ‘jardim secreto’ e permanecer secreto. Para a boa saúde mental de todos.
Vem isto a propósito da convivência dos profissionais de saúde com os riscos das doenças infecto-contagiosas. Ter como vizinhança a doença traiçoeira, que nos espreita 24 horas, obriga-nos a, no mínimo, reforçar a nossa “cerca”.
Ser tuberculoso é coisa própria para o isolamento e aqui a “cerca” tem outro estatuto. E é bom conhecer-se a situação da tuberculose no nosso país.
Doença do século passado, chamada “a Dama Branca”, parecia ter sido controlada, e já nem em tal se falava. Lentamente, quase sem se dar por ela, cá está de volta. Até certa altura falava-se do caso, mas com um certo distanciamento. Com a ideia, egoísta, de que essas desgraças aconteciam em grupos de risco, gente muito miserável, que não tinha condições de alimentação nem boa higiene. E agora? Como é que observamos este quase irradiado problema social com o retorno da miséria, aumento da pobreza ou falta de meios adequadamente visíveis para a dissolução deste flagelo socialmente deplorável e progressivamente em vias de expansão?
Atenção, Portugal «tem uma incidência de 30 a 40 casos por cem mil habitantes, contra os sete de Itália ou cinco da Grécia». Penso que vale bem a pena preocuparmo-nos com esta situação e não, como tantas vezes se faz, assobiar para o lado. É um problema, sim. E é grave.




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