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O perigo do excesso de ecrãs

O que faz uma mãe quando o filho lhe apre­senta, infor­mal­mente, uma espé­cie de tes­ta­mento vital é o tema de um breve relato, que cir­cula, em diversas línguas, através da Inter­net, sem atribuição de autor. A história é protagonizada por dois amigos. Um deles relata o que se tinha pas­sado no dia anterior:– Ontem à noite, depois do jan­tar, antes de sair, eu e a minha mãe está­va­mos sen­ta­dos no sofá a con­ver­sar sobre coisas da vida. Eu sei que sou um rapaz novo, mas, a propósito de uma reportagem que está­va­mos a ver na tele­visão, quis tam­bém falar sobre a morte. Então, disse à minha mãe: “Mãe, nunca me deixes viver num estado veg­e­ta­tivo, depen­dendo de máquinas, vivendo uma vida arti­fi­cial. Se me vires nesse estado, e por muito que te custe, pede para desli­gar ou desliga tu as máquinas que me mantêm vivo”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
3 Fev 2013

O outro decide inter­romper para fazer a per­gunta óbvia:
– E a tua mãe
A resposta não deixou de sur­preen­der:
– Levantou-se, deci­dida, e foi desli­gar a tele­visão, o DVD, o com­puta­dor, o cabo da Inter­net, o MP4 e o tele­fone fixo. A seguir, tirou-me e desligou o iPhone 5, o tablet e a PlaySta­tion.

É difí­cil não recor­dar esta história ao ler um título que se encon­trava na primeira página do Jor­nal de Notí­cias de segunda-feira, dizendo que “17% das nos­sas
cri­anças não comem nem dormem para estarem na Internet”. A notícia dava conta dos mais recentes resultados apurados pelo projecto europeu EU Kids Online, que, segundo o jornal, indicam que “o uso prolongado da Internet já se reflectiu em 45% das crianças portuguesas com um dos seguintes sintomas: não dormir, não comer, falhar nos trabalhos de casa, deixar de socializar, tentar passar menos tempo online”. Na Europa, acrescentava a informação, “só a Estónia está à frente: 49%. A existência de dois sinais – ter deixado de comer ou dormir para estar ao computador – foi apontada por 17% dos inquiridos”.

Esta notícia surge na mesma altura em que cinquenta espe­cial­is­tas france­ses em psi­colo­gia lançaram um apelo para que se tome con­sciên­cia dos riscos asso­ci­a­dos ao abuso dos ecrãs e para que se esta­beleçam regras de bom uso das novas tecnolo­gias, um código de boa con­duta da vida digital. “Nós, especial­is­tas em psi­colo­gia, em com­por­ta­men­tos e relações humanas, apelamos, hoje, a que cada um seja pru­dente e vig­i­-
lante face a uti­liza­ção excessiva dos ecrãs”, refere o texto, publicado no número de Fevereiro da revista Psychologies.

Os sub­scritores, alguns dos quais autores de livros edi­ta­dos em Por­tu­gal, como é o caso de, por exem­plo, Christophe André (Os seg­re­dos dos psis. Carnaxide: Objec­tiva, 2012) ou Isabelle Fil­liozat (No coração das emoções das cri­anças. Lisboa: Pergam­inho, 2001), começam por recordar o óbvio, dizendo que “os com­puta­dores, smart­phones e tablets rep­re­sen­tam um formidável pro­gresso. Facili­tam o acesso ao con­hec­i­mento e mul­ti­pli­cam as pos­si­bil­i­dades de tro­cas, inter­acções e coop­er­ações”. O problema, acrescentam, é que “deixando-
-os invadir o nosso quo­tid­i­ano, sem nos inter­rog­a­r­mos sobre os seus incon­ve­nientes, sem reparar na sua util­i­dade real, con­cedemos a estas tec­nolo­gias um poder preocu­pante sobre as nos­sas vidas”. É por isso que garantem que “uma tomada de con­sciên­cia é necessária”.

O apelo enumera, seguidamente, um conjunto de razões que a impõem: “É que o uso excessivo dos ecrãs induz uma hiper-solicitação per­ma­nente, fonte de stress e de cansaço. Priva-nos de tempo de repouso, de reflexão e de presença no mundo, indis­pen­sáveis ao bem-
-estar e ao bem-pensar. Favorece práti­cas patológ­i­cas e com­pul­si­vas, des­ig­nada­mente por parte dos jovens e das pes­soas frágeis. Mod­i­fica em pro­fun­di­dade os proces­sos de atenção, de mem­o­riza­ção e de apren­diza­gem. Prej­u­dica, por vezes, a qual­i­dade das nossas relações inter­pes­soais”.

Os signatários terminam endereçando um apelo a todos – cidadãos, políti­cos e fab­ri­cantes – “para o esta­beleci­mento con­junto de regras de bom uso das novas tec­nolo­gias, um código de boa con­duta da vida dig­i­tal”. Como muitos outros têm vindo a dizer, “o desafio é impor­tante: está em questão a preservação do nosso equilíbrio psíquico e da nossa humanidade face aos uten­sílios dig­i­tais”.

As razões do apelo para que se evite o abuso dos ecrãs são aprofundadas noutros textos que a revista Psychologies publica. No destaque concedido a esta preocupação, que merecia ser mais amplamente partilhada, não faltam os bons conselhos. Um dos que pode, desde já, ser aproveitado é o que recomenda que se prefira um encontro a um telefonema, um telefonema a um e-mail, um e-mail a uma mensagem SMS.




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