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O (des)acordo ortográfico

Num excelente artigo de opinião publicado no Expresso de 19 de Janeiro findo, o cronista Miguel Sousa Tavares tece duras (justas e pertinentes, aliás) críticas àquilo a que o autor chama “O Desastre Ortográfico”. Com a devida vénia, aqui se reproduzem algumas considerações do referido articulista:1. Com que direito se pode aceitar “o facto consumado de um acordo saído do nada, a pedido de ninguém, não negociado nem explicado aos principais utilizadores da língua – autores, professores, editores, jornalistas – e imposto a dez milhões de portugueses por uma comissão de sábios da Academia das Letras do Brasil e da Academia das Ciências de Portugal?”… “invocando vagos interesses geocomerciais, propor a sua submissão às regras em uso num país onde levámos a língua que o unificou”?

Domingos Alves
3 Fev 2013

2. … “Também nunca me convenceu o argumento de que o AO facilitaria a penetração da literatura portuguesa nos PALOP e no Brasil, impossível de alcançar sem ele. Quanto aos PALOP, basta o facto da recusa de Angola e Moçambique de, até hoje, ratificarem o AO, preferindo escrever no português que lhes levámos, para desmentir essa pretensa vantagem”…
3. … “O AO, que entre nós começou a vigorar aos bochechos em 2009 é, assim, e antes de mais, inválido, resultante de uma golpada jurídica não prevista no tratado inicial, que apenas confirmou o voluntarismo idiota e o abuso político com que todo o processo foi conduzido.”…
Mas, como já não bastassem as “negas” de Angola e Moçambique, eis que a grande reviravolta acabou por surgir com a decisão (bem mais prudente e sensata do que a dos nossos governantes) da presidente do Brasil em suspender “por três anos a sua entrada em vigor”, desta maneira protelando a data inicialmente prevista de 1 de Janeiro passado. Para tanto, bastaram as cerca de 30.000 assinaturas em boa hora levadas ao Congresso brasileiro…
Daqui resulta o caricato que Miguel de Sousa Tavares sustenta, mais ou menos do seguinte modo: “neste momento, há três grafias oficiais da língua portuguesa – a que vigora em Angola, Moçambique, Timor, e que é anterior ao AO; a grafia brasileira que é a mesma de sempre, (…) ao longo de 60 anos; e a de Portugal (resultante do AO de 1990), com as excepções ainda autorizadas”…
Estamos, pois, perante um imbróglio curioso, para não lhe chamar outra coisa…
– em Portugal, embora “aos bochechos” e com “alguma resistência”, lá vai entrando em vigor…
– em Angola e Moçambique, ainda não foi ratificado…
– no Brasil, falta saber como o Congresso irá decidir por volta de 2015…
E tudo isto por obra e graça de umas quantas “mentes brilhantes”que parecem ter esquecido aqueles valores que “qualquer país independente se preza em salvaguardar: o território, o património, e a língua”.
Não foi, aliás, por acaso, que Fernando Pessoa, esse grande génio da literatura que todos orgulhosamente reverenciamos, um dia proclamou: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.

PS. Se me permitem, e para além da justa “homenagem de gratidão” sugerida por Miguel Sousa Tavares, o meu sincero apreço pela coragem de Vasco Graça Moura que, uma vez à frente dos destinos do Centro Cultural de Belém, logo determinou que, de futuro, todos os documentos oficiais em uso na Instituição fossem escritos de acordo com a ortografia antiga.




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