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Balões cheios de coisa nenhuma

Preocupa-me a desorientação reinante em vários setores da sociedade. Pessoas que ocupam lugares de responsabilidade sabem o que não querem mas ainda não conseguiram descobrir o que querem. Andam à deriva. Às apalpadelas. A fazer experiências e mais experiências. Desencaminhadas e desencaminhando. Para mal de todos nós. Sabem que não querem ser rotuladas de conservadoras. Sabem que querem mostrar terem rompido com o passado. Mas não sabem que conteúdo dar à sua ânsia de modernidade e de progressismo.

Silva Araújo
31 Jan 2013

Não querem assumir atitudes rançosas, mas não descobriram nada que lhes dê jovialidade e frescura. Não querem cheirar a naftalina, mas como ainda não encontraram outro remédio para eliminar a traça, vêm para a rua de camisolas esburacadas. Destroem.
Sabem pôr defeitos no trabalho dos que as precederam, mas não se atrevem a construir. Não arranjam substitutos válidos para quanto demoliram. E é pena.
 
A situação talvez mudasse se, em vez de se exibirem, pessoas que dizem querer servir servissem mesmo. Se, em vez de mostrarem novidades balofas que se não aguentam, aproveitassem a sabedoria de séculos e tivessem a humildade bastante para dar continuidade ao que outros iniciaram. Repetir o que outros fizeram. Tirar proveito do que outros, pacientemente, ensaiaram. Mas como, com isso, não dão nas vistas porque não apresentam nada de novo, e o que buscam é a novidade, passam a vida a fazer e a desfazer, a negar hoje o que ontem afirmaram, não deixando nada de consistente e de sólido.
 
Os que nos precederam também pensavam. Também procuravam o melhor. Também fizeram as suas experiências e tiraram as suas conclusões. Porque não havemos de aproveitar o bom das conclusões a que chegaram e nos limitamos a acabar com o que estava sem conseguirmos coisa melhor?
O que nos legaram tinha defeitos? De acordo. Em vez de o eliminarmos, procuremos preencher-lhes as lacunas.
É fácil destruir. Qualquer aprendiz de pedreiro deita uma parede abaixo. E pô-la em cima?
Não há progressismo que só tem produzido disparates? Não há desejos de modernidade que tiraram às pessoas o arrimo que tinham, porque antiquado, não lhes deixando nada em que se apoiar?
Precisamos de ser homens do nosso tempo. De acordo. Mas para isso não é necessário relegarmos o trabalho meritório dos nossos antepassados. Não é necessário ver só defeitos onde existiam muitas virtudes. Não é necessário acabar com o que existia nada construindo em troca. Não é preciso andar na lua. Inovar não quer dizer destruir o que de meritório se fez.
 
É mais que urgente que pessoas que ocupam lugares de responsabilidade saibam parar para refletir. Tomem consciência de que são um elo de uma cadeia. De que há trabalhos que devem ter continuidade, corrigindo os pontos fracos, não os deixando estagnar. Se não quiserem, ou não puderem, ou não souberem melhorar, pelo menos que deixem estar a cadeia no ponto em que a encontraram. Que se não ponham as pessoas a dormir na rua só porque a casa em que viviam estava longe das condições ideais.
 
O progresso das comunidades não se consegue destruindo o que outros fizeram e nada construindo em sua substituição. Que se caminhe. Que se avance. Mas sobre alicerces firmes, aproveitando as lições do passado e não edificando castelos no ar.
Os coloridos balões de romaria são muito vistosos e pairam no ar, porque não têm nada dentro. Quando se pretende ajuizar do seu conteúdo, estoiram e vão para o rol das inutilidades.
Indivíduos grávidos de importância, muito bem falantes mas pouco pensantes, blasonam de méritos e de invenções, mas dentro têm vento e… nada mais. Palavreado. Só palavreado.




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