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Televisão, dependência e verdade

Os Lopes são uma família da classe média. Pais de três filhos (Óscar de dez anos, Artur de oito e Carolina de seis), ele, técnico numa empresa de equipamentos informáticos e ela, funcionária da Administração Pública, o seu dia-a-dia é como o da generalidade dos portugueses: casa-trabalho-trabalho-casa e uma ou outra escapadela aos fins-de-semana. A família Lopes dispõe de pouco tempo e disponibilidade para o diálogo e a aceitação mútua. Chegados da escola, e, após os trabalhos de casa e antes do jantar, enquanto a mãe se entrega às canseiras da cozinha e o pai espiolha a imprensa diária, a televisão é a companhia desejada das três crianças.

Dinis Salgado
30 Jan 2013

Somente, assim, à mesa do jantar, têm os Lopes o único momento do dia de encontro e diálogo, quase sempre fugaz e monocórdico, porque os filhos quezilam constantemente uns com os outros, o pai espreita na televisão as últimas notícias e a mãe, mal se senta, ora arranjando o peixe ao Artur, ora fritando batatas para o Óscar que não quer arroz seco, ora convencendo a Carolina que rejeita a sopa.
Após o jantar, mesa arrumada, loiça lavada e dentes escovados, a televisão volta e faz o serão, mesmo que precário, da família: futebol, novelas, filmes de ação, séries e bonecada. E, até, que o sono vença a resistência da criançada e a ordem de deitar, mesmo que resmungada, venha já com a noite em crescendo e as tarefas de um novo dia a exigirem disponibilidade e descanso.

Segundo dados estatísticos, as famílias Lopes são a maioria das famílias portuguesas, onde a dependência televisiva é a ocupação exclusiva dos seus tempos livres. Estas famílias, fechadas ao diálogo, à troca de ideias e discussão de opiniões, movem-se mais pelo individualismo, o egoísmo e o monólogo do que pelo diálogo e os sentimentos de partilha, solidariedade, autonomia e liberdade.
É dramático saber que os bebés de todas as classes sociais passam cerca de nove horas diárias, em casa, creches e infantários, a ver televisão. Ora, a preocupação imediata que se levanta é a falta de interação e relação que, assim, se evidencia e é essencial para o desenvolvimento pessoal e social, da inteligência, da psicomotricidade, da oralidade e para a formação da moralidade, da vontade e da emotividade destas crianças.
Ademais, estes bebés arriscam-se a crescer sozinhos, alheios ao estabelecimento de relações entre os adultos e os seus pares, à resolução de conflitos, à definição, conhecimento e uso de regras e à confrontação de sentimentos e manifestações de hostilidade, agressividade, birras e pertença, próprios da afirmação da identidade e personalidade. E mais grave ainda, entregues ao visionamento e consumo livres, não filtrados nem comentados de ensinamentos, imagens e conceitos, é o atrasar-se e deixar de se estimular, deste modo, a socialização e descoberta do outro que são fatores de crescimento, desenvolvimento integral e adaptação à realidade.
Por isso, é urgente que pedagogos, governantes, pais, educadores e professores encarem a realidade e tomem as decisões que protejam as nossas crianças desta autêntica ditadura televisiva. E, até, para que não tenhamos de praguejar:
– Porra, vai cá uma nortada!
Então, até de hoje a oito.




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