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Auschwitz, o “mal absoluto”

Em 27 de Janeiro de 2013, passaram 68 anos sobre a libertação do campo de concentração e de extermínio nazi de Auschwitz (a cerca de 40 quilómetros de Cracóvia), na Polónia. Erguido pelos alemães nazis em Maio de 1940, de campo de trabalho e de extermínio para os presos políticos polacos (que não cabiam nas prisões do III Reich) depressa foi transformado em campo de morte generalizada. Muitos outros campos existiram: Buchenwald, Dachau (o primeiro, em 1933, logo que Hitler subiu ao poder), Belzec, Chelmno, Majdanek, Sobibor, Treblinka.

Acílio Rocha
30 Jan 2013

Em 1942, a Alemanha nazi decide proceder ao extermínio massivo de 11 milhões de judeus que então viviam na Europa ocupada por Hitler; para isso, construíram, ao lado de Auschwitz, o imenso campo de horror inimaginável que foi Birkenau: numa superfície de 175 hectares, os presos eram sistematicamente eliminados, na sua maioria judeus; quatro crematórios, com câmaras de gás, permitiam assassinar e eliminar oito mil pessoas em meia hora; aí; onde o destino era morrer e morrer do modo mais desumano, foram deportadas 1,3 milhões de pessoas (1940-45), das quais encontraram a morte 1,1 milhões de judeus, 75 mil polacos, 21 mil ciganos, 15 mil soviéticos e 12 mil vítimas de outras nacionalidades.
Cada vez mais se verifica que é crucial mostrar ao mundo o que foi Auschwitz, conhecer a verdade, nua e crua; a melhor comemoração, hoje, 68 anos depois, será tudo fazer para que tais intentos não sejam mais possíveis no mundo. Quem por ali passe e visite estes terríveis lugares do horror, sente um pouco o que pode ser “o inferno na terra”. A atrocidade não tinha limites: as cabeleiras utilizaram-se para fins industriais; os dentes e anéis de ouro fundiram–se em lingotes; os relógios e objectos pessoais eram extorquidos pelos seguidores de Hitler; distribuíram-se milhares de pares de sapatos pelos guardas e, aquando da libertação, encontraram-se sete mil quilos de cabelo para as fábricas do Reich.
Ora, não podemos mesmo esquecer Auschwitz! Todavia, o homem parece querer abafar o clamor da sua memória: desde as purgas étnicas na ex-Jugoslávia, à destruição sistemática na Tchetchénia, aos genocídios que se continuam a perpetrar-se, o homem esquece Auschwitz! Desde a inquietante maré negra que ressurge com a extrema-direita na Europa, a mitificação iconográfica dos símbolos nazis, a proliferação dos ataques racistas, os fanatismos e os fundamentalismos, toda a extensão da violência e do terror ainda hoje visível em pleno século XXI, os humanos esquecem Auschwitz!
68 anos depois de Auschwitz, importa conhecer a história da II Guerra Mundial, para que nunca mais… Na escola – especialmente nesse tempo de aprendizagem –, mas também na imprensa, no cinema, na televisão, por todos os meios, deve saber-se que o ser humano infligiu a uma outra parte da humanidade as maiores atrocidades: conhecê-las, ajudará a nunca mais… as repetir. A memória de Auschwitz – esse período mais negro da história europeia – deve ser rememorada: que essa memória não fique perdida nos arquivos da história; que ela seja continuamente recordada, tanto quanto for possível, para que isso – Auschwitz –, essa inverosímil verdade, nunca mais…
Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, autora da conhecida obra “As Origens do Totalitarismo” (3 tomos, 1951), lembrou que os nazis estavam convencidos que o seu empreendimento criminoso, porque tão hediondo e desumano, ninguém no exterior acreditaria no que realmente se passava em Auschwitz. Para dar conta da crueldade e da violência em Auschwitz, Primo Levi (químico e escritor italiano, prisioneiro em Auschwitz-Birkenau), autor do livro “Se isto é um Homem” (1947), recordava a pergunta feita a um ex-comandante SS de Treblinka, Franz Stangl, sobre a finalidade das humilhações e crueldades infligidas aos prisioneiros dos campos de extermínio, quando, à partida, o objectivo era exterminá-los. A resposta de Stangl foi: “Para condicionar os que deviam executar materialmente as operações, para lhes tornar possível fazer o que faziam”. Quer dizer, era necessário, primeiramente, degradar totalmente a vítima para que os algozes sentissem menos com o extermínio de pessoas; foi a isso que Primo Levi chamou a “única utilidade da violência inútil”.
No discurso em que recebeu o Nobel da Paz, em 1986, Elie Wiesel, antigo deportado em Auschwitz, disse: “a vida nesse universo amaldiçoado era tão distorcida, tão antinatural, que uma nova espécie surgiu: quando vagueávamos entre os mortos, não sabíamos se ainda estávamos vivos”. Se esta asserção expressa dramaticamente o horror que foi esse “mal absoluto”, é que, porque inacreditável, aconteceu. Jacques Derrida (filósofo francês, de origem judaica, nascido na Argélia) insistia que, em tais condições, quando o perdão se segue a um crime imperdoável, “perdoar é um acto de loucura”.




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