Fotografia:
Estamos avisados

Estamos avisados. António José Seguro, secretário-geral do Partido Socialista, não podia ter sido mais explícito. Sem o querer dizer, disse-o. Alto e bom som. O melhor é não acreditar nos políticos, porque dizem hoje uma coisa e amanhã outra. Como exemplo, apresentou-se ele próprio. Não o quis fazer, mas enrodilhou-se na sua própria ratoeira. Depois de se afirmar categoricamente contra o aumento de impostos, porque conduziriam a uma espiral recessiva, em recente entrevista não se comprometeu, no caso de vir a governar o país, com a descida da fiscalidade sobre o trabalho.

Luís Martins
29 Jan 2013

Uma incongruência que se pressentia existir, mas que o discurso até então escondia. Infelizmente, não é caso único. Há muita dissimulação e mentira no discurso político, o que nos deve levar a uma análise criteriosa e crítica das propostas que nos fazem. Acreditar em quem agora diz uma coisa para logo depois dizer outra diferente é um erro que precisamos de evitar.
A coerência é coisa que tem faltado à prática política. Infelizmente, é cada vez mais escassa. Vai ser mais difícil, doravante, acreditarmos nos políticos, mas posso estar enganado. Para voltarmos a acreditar, vamos necessitar de evidências. As que nos vão chegando são o contrário do que seriam expectáveis. Com a carga fiscal a apertar, as pessoas socorrem-se de alguém que lhes promete algo de positivo e que as salve das aflições. É natural. No meio de tantas dificuldades, se lhes aparece alguém que diz fazer diferente sem tanto sacrifício, ganha com facilidade o seu voto de confiança. O problema é a falta de coerência que os profissionais da política utilizam em proveito dos seus objectivos partidários. Não raro, os adversários políticos defendem com unhas e dentes umas medidas que são tomadas pelo seu partido e reprovam no momento seguinte as mesmas medidas tomadas pelo partido opositor no Governo. É verdade. As medidas são boas se tomadas pelo nosso partido e o seu contrário quando é o adversário político a tomá-las.
Nos tempos que nos encolhem as opções, em que uns dizem não haver outro caminho e que a austeridade é que nos purifica e nos salva, o Partido Socialista tem dito que faria diferente se fosse Governo, que conhece outro caminho para o país. No entanto, na primeira oportunidade que a questão se coloca, o seu responsável máximo afirma, preto no branco, apesar de ter afirmado e reafirmado o contrário, que quando for Governo não se compromete com a descida da fiscalidade. Confusos? Eu estou, apesar de avisado.
A estratégia é sempre a mesma. Num primeiro momento, é esperar que sejam os outros a tomar as medidas difíceis e que o povo fique desagradado. Depois, quando os votos tiverem sido contados, quando outro partido tiver chegado ao poder, as promessas antes feitas, com convicção para garantir sucesso, ficam a aguardar melhor oportunidade. Muitas são arquivadas logo, outras mais tarde. O novo Governo bem podia retirar aquelas medidas com que antes a oposição dizia não concordar, mas não. Ficam, porque não há alternativa. Além do mais, foram outros que as tomaram, devendo o odioso ser imputado a quem as tomou. O salvador é sempre aquele que nos parece ser capaz de nos redime das dificuldades. Mas, quase sempre, acrescenta outras. O povo não merece tamanha desfaçatez.
Numa altura em que se fala de sacrifícios, dos que são necessários e dos que nos desesperam, precisamos de quem nos dê garantias para o futuro, mas também para o presente. É fácil anunciar um futuro risonho que ninguém pode comprovar. O agora não pode ser negligenciado, sobretudo se o sacrifício for muito, como é o caso. Seguro, já o disse, não é solução nem seguro de ninguém. Os seus correligionários também já lhe estão a colocar reservas. Não sei se por ter dito o que disse relativamente às dúvidas em baixar os impostos dos trabalhadores, se por acreditarem que o tempo é de preparação para novos voos, se por qualquer outro motivo. O melhor mesmo é estarmos atentos. Avisados já estamos.




Notícias relacionadas


Scroll Up