Fotografia:
Um manifesto e várias perguntas sobre a Europa

No canto inferior direito da primeira página do diário El País de ontem, no mesmo espaço em que, no dia anterior, se pedia desculpa pela publicação de um fotografia grotesca, irrelevante e falsa (o pedido de desculpa, de facto, era apenas por a fotografia ser falsa, não havendo qualquer retractação por ser grotesca e irrelevante), noticiava-se que um grupo de intelectuais pede um avanço na união europeia para salvar o continente. “A Europa ou o caos”, afirmava o título.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
27 Jan 2013

Entre os signatários, encontra-se gente respeitável como o espanhol Fernando Savater, a francesa Julia Kristeva, os italianos Claudio Magris e Umberto Eco e o alemão Peter Schneider. Dizem eles que “a Europa não está em crise, está a morrer. Não a Europa como território, naturalmente. Mas a Europa como ideia. A Europa como sonho e como projecto”. O que, na Europa, é pesadelo tem sido frequentemente denunciado pelo poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger.

Num texto intitulado “Quarenta ratoeiras sobre a Europa”, publicado, há semanas, no Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, voltou a fazê-lo. Enzensberger apresenta um questionário. Cada ratoeira apresenta-se como uma pergunta. As respostas, que pedem apenas um sim ou um não, são sempre óbvias. Na verdade, o questionário é apenas um eficaz dispositivo retórico para tornar evidente que a Europa segue pelo caminho errado, conduzida, contra os cidadãos, por uma burocracia instalada em Bruxelas: “Existirá uma Europa fora das instituições da União Europeia e dos seus 40 mil funcionários, ou serão estes os únicos representantes do nosso continente que têm voz?”

Entre o que atormenta a Europa, encontra-se um conjunto de siglas que substituíram as instituições democráticas. Elas suscitam ao poeta e ensaísta cinco perguntas: “Consegue descodificar os acrónimos BCE, FEEF, MEE, ABE e FMI? Considera que a maioria dos países europeus não são regidos desde há muito por instâncias democraticamente eleitas, mas por estes acrónimos? Elegeu estas organizações? Farão elas parte da constituição alemã ou de qualquer outra constituição da União Europeia? Nestes últimos anos, já ouviu dizer que não existia ‘outra opção’ para além das decisões de tais instituições?” Mais adiante, surge uma nova interrogação para ajudar a identificar quem é que manda: “Sabe o nome e o endereço exactos dos ‘mercados’ que decidem o que os salvadores do euro devem fazer?”

As falsas dúvidas, digamos assim, também se colocam a propósito de quem, nesta Europa, se encontra do lado perdedor: “É verdade que os sem-abrigo, os toxicodependentes, os assalariados ou os pensionistas não têm o direito de pedir financiamentos, ao contrário dos membros do Eurogrupo [os ministros das Finanças e da Economia da Zona Euro] ou dos conselhos de administração dos bancos? Esses pedidos costumam ser concedidos? Deverão os guardas costeiros assegurar-se de que os passageiros em apuros não representam ‘riscos sistémicos’ antes de os salvar?”

Hans Magnus Enzensberger apresenta, depois, algumas afirmações e pergunta ao leitor se sim ou não as aprova: “Tomamos uma decisão, colocamo-la na mesa e esperamos um bocado para ver o que acontece. Se não provoca revoltas nem tumultos, uma vez que a maioria das pessoas não percebe nada do que foi decidido, prosseguimos – passo a passo, até não ser possível voltar atrás.” (Jean-Claude Juncker, ex-presidente do Eurogrupo, 1999); “Os responsáveis políticos parecem medíocres cavaleiros, esforçam-se de tal forma para não cair do cavalo que deixam de poder estar atentos ao caminho a seguir.” (Joseph A. Schumpeter, economista, 1944).

O efeito de algumas afirmações é também objecto de indagação: “Conseguiu habituar–se ao discurso metafórico delirante dos salvadores do euro ou considera-o radical, confuso ou até mesmo ridículo? Sabe estabelecer uma distinção entre um mecanismo de estabilidade, uma alavanca, uma ‘grande bazuca’, um Grande Bertha [alcunha dada pelos alemães aos canhões utilizados pelo seu exército durante a I Guerra Mundial], um guarda-
-fogo e um plano de resgate? Consegue manter-se confiante ao relembrar-se do que dizia Karl Valentin [actor cómico alemão]: ‘Com um bocado de sorte, as coisas não ficarão piores do que já estão’?”

As interrogações finais visam o cerne do projecto democrático europeu: “Será a democracia tão má ideia que podemos abdicar dela quando necessário? Será a China um exemplo de que podemos renunciar à democracia e tornar-nos uma potência mundial na era da mundialização? Será portanto inevitável a colocação dos cidadãos sob tutela política e a sua expropriação económica uma consequência lógica?” Enquanto não se construírem para estas questões as boas respostas, não abrandará a agonia da Europa.




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