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O que é a enurese?

O conhecido especialista Ajuriaguerra descreve a enurese como “a falta de controlo da emissão de urina, de dia ou de noite ou em ambas as situações, aparentemente involuntária, persistente ou aparecendo após a idade em que a maturidade fisiológica é adquirida” (mais ou menos pelos três anos). Para se ter uma ideia de como o diagnóstico diferencial da enurese é difícil de precisar, vamos fazer uma rápida análise de alguns dos seus traços. Isto confirma o ditado técnico de que não há enurese, mas enuréticos, pois cada caso tem as suas características especiais, que é importante saber, em função do plano psicoterapêutico a aplicar.

M. Ribeiro Fernandes
27 Jan 2013

1. A primeira condição para que se possa falar tecnicamente de enurese é que essa “falta de controlo da micção” seja involuntária. Se a criança urinar na cama porque tem preguiça de ir ao WC ou porque tem medo de se levantar da cama para ir, de noite, sozinha ao WC, isso não é enurese.
Para além de involuntária, deve ser inconsciente, isto é, a criança não ter consciência de que está a urinar, de noite, na cama: se tivesse essa consciência, não se tratava de enurese, mas de incontinência. Na incontinência, o sujeito tem consciência de que está a urinar, mas não consegue parar de o fazer, o que remete para variadas hipóteses orgânicas, que podem ser responsáveis por essa incapacidade, das quais não vamos agora aqui falar.
Outro aspecto a considerar é que, para haver enurese, esse distúrbio seja persistente. Se se tratar apenas de um episódio passageiro de descontrole da micção, isso não configura um quadro de enurese.
2. Essa falta de controlo da micção também tem que ser definida no tempo em que começa, o que dá origem a distinguir-se entre enurese primária (que se refere a uma situação em que a criança ainda não adquiriu o controle do esfíncter vesical, apesar de já ter a idade média em que isso costuma estar adquirido) e enurese secundária (que surge após um intervalo de tempo, mais ou menos longo, em que já tina adquirido o controle do esfíncter vesical).

3. É também importante saber se a enurese é apenas diurna, se é apenas nocturna ou se é diurna e nocturna. Outro aspecto importante a saber, em função do plano terapêutico, é o ritmo enurético: se é constante (se acontece regularmente), se é irregular, se é intermitente ou se é meramente episódico, pois isso traduz um aspecto importante do sintoma e do modo como ele funciona na vida do sujeito.

4. A qualidade do sono também pode ter um papel importante na génese da enurese. Por exemplo, se urina na cama sem acordar é porque o sono é tão profundo que a necessidade de urinar não é percebida. Essa pode ser uma das razões porque, na altura da puberdade, muitos casos de enurese se resolvem por si: o sono torna-se naturalmente mais leve.
5. Outro aspecto a analisar são os sonhos que acontecem ligados à enurese. Embora não se possa dizer que a enurese seja acompanhada de qualquer sonho miccional, a verdade é que há casos em que isso acontece. Por exemplo, sonhar que vão a entrar para um WC e acabam por urinar; outras vezes, por causa desse esforço de contenção, acabam por acordar. E isso já dá uma indicação muito positiva sobre a situação concreta e o modo de a abordar.
Duché afirma que o sonho dos enuréticos é caracteristicamente agressivo e que a figura paterna está ausente desses sonhos. Pode fazer sentido esta ausência da figura paterna, porque o mundo da criança organiza-se primariamente sobre o apoio da pessoa da mãe e sobre as relações vitais de alimento e de cuidados de limpeza que a ligam a ela. Daí que o benefício mais frequentemente procurado na enurese seja o desejo de ser objecto de solicitude materna. É assim que se pode entender, por exemplo, o caso de crianças que, já tendo controlado o esfíncter vesical, sofrem uma regressão, por exemplo, nas colónias de férias.
O mesmo Duché levanta questões pertinentes ao perguntar se as crianças enuréticas o serão por carência educativa, por rebelião contra o regime de vida que lhe é imposto, por necessidade de chamar a atenção para si mesmas… É uma área a investigar em cada caso.




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