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A clepsidra do nosso tempo

Não vou escrever sobre a Clepsidra de Camilo Pessanha, livro de poemas de base simbólica, com o seu misticismo e paixão pelo fantástico, descoberta do subconsciente e sentido lírico do mundo real.Vou ater-me, num breve texto, ao significado e implicações do termo clepsidra, de origem grega, que significa relógio de água e que era usado, de modo frequente, para medir o tempo concedido aos oradores da antiga Grécia. Compunha-se tal relógio de dois recipientes sobrepostos. O superior deixava escorrer a água lenta e ininterruptamente para o inferior através dum conduto estreito.

Manuel Fonseca
27 Jan 2013

Teria a forma semelhante aos dos relógios de areia que algumas estâncias termais usavam. É possível que ainda se usem. Pelo menos, eu tive um diante dos  olhos em tratamentos que fiz.
Tal aparelho era usado na oratória, para que não houvesse exageros de tempo. É uma inclinação natural dos oradores, que, se não forem travados por alguém, dizem, desdizem, contradizem e maldizem. É conhecido o provérbio latino “Esto brevis et placebis”, sê breve e agradarás.
Há a oratória sacra, a parlamentar, a forense e outras. A que mais retine aos nossos ouvidos é a parlamentar, mormente devido à transmissão televisiva. Em meu pobre entender, deixa algo a desejar, sobretudo devido aos impropérios que os deputados se dirigem mutuamente.
Não é um pormenor, pois essas lacerações verbais, para além de criarem um ambiente deprimente geral, que afeta os ouvintes externos, afasta horizontes de entendimentos democráticos. Essa verborreia desatinada não propicia alternativas credíveis. Não admira que a situação política atual se encontre numa das fases mais críticas da mundividência governativa.
Felizmente, no âmbito da regulação do tempo, há relógios suficientes, não de água ou areia, mas de pulso, bolso, peito, computador, telemóvel e, sobretudo, de quem preside aos acontecimentos.
A boa educação tem lugar em toda a parte. E a melhor forma de evitar um conflito é preveni-lo. Se um diálogo ou discurso começa por um insulto, o caminho que se segue é de revolta e de exasperação de posições, a não ser que o interlocutor assuma uma atitude mitigada e humilde e prefira realçar aspetos positivos.
A oratória sacra, que se verifica nos templos religiosos, também deve ser sensata e não abusar da paciência dos crentes. Normalmente, ninguém gosta de sermões demorados, sobretudo nas celebrações dominicais, mesmo por causa dos horários dos transportes públicos.
Recordo o que um clérigo declarava numa palestra: nas homilias, durante dez minutos, é Deus que fala; depois desse tempo, é o homem que fala.
De qualquer modo, esta Palavra, a de Deus, através do Seu ministro, é a mais importante na vida das pessoas e das comunidades. É luz a guiar-nos nos caminhos, muitas vezes, difíceis e tenebrosos que temos de percorrer na terra.




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