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O lugar da memória e da amizade na internet

Parece longínquo – quase jurássico – o início da internet. Mas decorreram apenas 40 anos desde que a ARPANET ligou em rede quatro universidades. Ou então 20 anos desde que as «Cernettes» se estrearam na nova rede de comunicação, com origem no CERN, chamada Word Wide Web (WWW). O que mudou desde então? Democratizou-se a internet. Evoluíram as tecnologias. Revolucionou-se o paradigma (a nova Web 2.0 e futura Web 3.0). Mudou ainda outra realidade: a nossa percepção sobre o impacto e a natureza deste fenómeno.

Tiago Freitas
26 Jan 2013

Hoje está superada a noção da internet como um mero «instrumento de comunicação». A imagem da Aldeia global (Marshall McLuhan), entendida como uma rede de pontos ligados pelo constante fluxo de informação, é insuficiente para exprimir a realidade diante dos nossos olhos. A internet – muito por culpa das redes sociais – configura-se agora como um lugar antropológico ou um «ambiente comunicativo e relacional» (Dario Viganò). A aldeia construída passou a estar habitada, mesmo por aqueles que pensam viver offline.

RI-FORMA MENTIS
A McLhuan pertence ainda outra frase profética. «A internet como uma extensão da consciência». Contudo, será uma simples extensão? Eu creio, e outros também, que ela está a operar uma reconfiguração da nossa mente. Não é uma teoria da conspiração. Serve apenas para dizer que ninguém é imune à realidade que o envolve nem aos meios com os quais comunica. Se é verdade que a rede operou uma revolução cultural, será plausível afirmar que o ser humano e o modo como a sua mente opera (forma mentis) é igual a um estado pré-tecnológico? Penso que não e gostaria de explorar duas dimensões humanas para verificar este pressuposto. A memória e a amizade.

MEMÓRIA
Uma conquista dos nossos dias é, sem dúvida, o acesso transversal ao mundo da cultura e da formação intelectual. Um novo ingresso com novas regras. Passou-se de um saber universal / enciclopédico para um saber especializado. Hoje as universidades formam peritos em áreas específicas. Em segundo lugar, deu-se a passagem de um modelo alicerçado na transmissão de conhecimentos herdados (past-oriented knowledge) para outro centrado na aquisição de competências, mais do que na formação integral da pessoa (future-oriented knowledge). A sociedade contemporânea privilegia e quer o futuro. Quer, mas não sabe esperar por ele. Uma espécie de «Futuro hoje», para evocar a rúbrica do jornalista João Gomes, que empurra para a precariedade de uma versão alpha ou beta.
A internet é também um exemplo eloquente do presente absoluto. Ela «parece oferecer uma conectividade global sem tempo: a home page está sempre ligada, mesmo quando o seu proprietário dorme» (E. Burman). Graças ao marketing agressivo, a nossa mente criou talvez a ilusão de que esta omnipresença é segura e eterna, ao ponto de dispensarmos a fadiga de exercitar a nossa memória. «Para quê manter fresca e activa a memória se toda ela está armazenada em algo que um programador de sistemas chamou “a melhor e maior biblioteca do mundo”?» (Mario Vargas Llosa). Qual é fragilidade desta realidade? É que a internet foi «desenhada para substituir meios de comunicação temporários» (Daniel Gomes). Experimentem procurar um texto que há 5 anos acharam interessante.
Em que está então a mudar a nossa forma mentis? Ela caminha para uma nova concepção que «dissolve a linearidade e a irreversibilidade do tempo num timeless time = tempo eterno» (Manuel Castells). Para o cristianismo esta é uma perda angustiante. A sua identidade reside na linearidade do tempo: o respeito pelo passado (martírio) e o futuro (escatologia) que ilumina o nosso presente (salvação). A história da salvação pede um «elogio da diacronia» (Giusep-
pe Lorizio)

AMIZADE
O segundo aspecto é o da amizade e as ligações que atravessam o plano digital. Creio que também está superada a fase – ou deveria estar – de ver a internet como um mundo não-real ou virtual. Vários estudos demonstram que para os nativos digitais é residual o perigo dos avatares (cf. Kaveri Subrahmanyam e David Šmahel). Pelo contrário. É perigosa sim a sobreexposição da vida íntima, a dispersão e, em casos extremos, o cyberbullying. Realidades que demonstram a teoria inicial da rede como espaço antropológico.
As redes sociais, e em especial o facebook, não podem deixar-nos indiferentes. São espaços formidáveis para reencontrar amigos, fazer novas amizades ou manter as actuais. Mas as contradições também lá estão presentes, como é o caso do termo «amigos». É normal encontrar pessoas a atingirem o limite imposto de 5000 amigos. O mais imediato seria falar da banalização da «amizade», como muitas vezes lemos. Não creio que seja o caso. Cada pessoa tem objectivos e posturas diferenciadas quando usa o facebook. Por vezes aceita-se ou pede-se a «amizade» de alguém pelo simples facto de querer partilhar uma mensagem (caso do comércio electrónico), por ser um conhecido ou até porque admiramos o trabalho de alguém e queremos estar a par das novidades. A ambiguidade está do lado do sistema, não dos utilizadores. E a entidade que gere esta rede social percebeu bem a diferença entre «amigos» e «conhecidos». Daí ter possibilitado o uso de mensagens restritas a públicos-alvo. Os «amigos verdadeiros» são, na linguagem do facebook, os «amigos chegados» ou a «família».
O antropólogo Robin Dunbar é lapidar ao afirmar que «o nosso “capital emotivo” não é sem limites». Sem limites é o desejo das pessoas sentirem-se amadas. Por algum tipo de desequilíbrio (não originado exclusivamente pela internet) algumas pessoas podem viciar-se nas redes sociais como procura de sentido. Os desequilíbrios devem ser entendidos como tal.

De um modo geral, estou convencido que a maturidade que o tempo oferece e o bom senso ajudará a clarificar o lugar adequado das redes sociais na nossa vida. Bem como a importância do direito à memória. Tem razão George Santayana quando diz que «aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo». Não será este um preço demasiado alto a pagar para uma sociedade com olhos postos no futuro?




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