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Kant e a rotura entre Ciência e Metafísica

Primeiro vou dar ao rol a roupagem, tirada da trouxa do pensamento de Kant (1724), pondo-a, depois, a corar ao sol brilhante da Razão para branquear algumas das peças mais íntimas do seu pensamento. Em seguida, vamos juntos conviver e saborear, regaladamente, no restaurante mais próximo, o manjar confecionado com apetitosos fenómenos e inteligíveis númenos, que é de comer e gritar por mais.Kant, quanto à estatura do seu pensamento, é, em altura, um gigante: em musculatura, um atleta; em flexibilidade, o espanto dos circos; em salto e mobilidade, um corredor de classe.

Benjamim Araújo
23 Jan 2013

Mas era este homem que, humildemente, se ajoelhava de mãos postas e respeitosas, a implorar à sua razão que lhe respondesse, de forma clara e distinta, ao que apaixonadamente dominava o seu sonho: O que é o homem?
Relacionado com esta auto-pergunta, vamos dar ao rol a roupagem do seu pensamento.
São três, diz Kant, as questões, entre si conectadas, em ordem à satisfação do seu sonho: A Metafísica, que trata de dar resposta àquilo que podemos conhecer, a Moral que se vai responsabilizar, através da razão prática, por aquilo que devemos fazer; a Religião que toma a seu cargo o que nos espera.
Quanto ao conhecimento, Kant distingue, no homem, três faculdades: sensibilidade, entendimento e razão. Na Crítica da Razão Pura, Kant denomina-as, respetivamente, por Crítica Transcendental, Analítica Transcendental e Dialética Transcendental, a qual se vai ocupar da possibilidade ou impossibilidade da metafísica. E o rol continua por aí adiante, não esquecendo, com todo o empenho, as noções de experiência, fenómeno e númeno. 
Será possível que a metafísica se torne uma ciência? Kant nega-o peremptoriamente.
A ciência é o conhecimento e a compreensão da experiência que nos envolve. As faculdades, fontes deste conhecimento e compreensão são, segundo Kant, respetivamente, a sensibilidade com as suas intuições a priori (espaço e tempo) e o entendimento com os seus conceitos a priori (categorias). A experiência, agora conhecida e compreendida, manifesta-se naquilo a que Kant denomina por fenómeno.
Há, porém, diz Kant, uma outra realidade, que está para além da experiência. Esta realidade é o númeno, é o em si, o inteligível, o incondicionado. É o nosso ser autêntico. É Deus. Nada disto, por razões muito claras, por ele apresentadas, pode ser conhecido e compreendido pela Razão Teórica.
É o númeno que justifica a possibilidade da metafísica, pois é nesta realidade que a metafísica prende e nutre as suas raízes.
Questiono-me: ? Poderá haver alguma rotura ou desconexão entre a ciência e a metafísica? Não creio. Porém Kant, por razões óbvias, separou-as, elogiando a
ciência, sem freios na língua, quanto ao seu progresso e ao acordo entre os cientistas.
A metafísica, digo-o com toda a convicção, está implícita na ciência mas supera-a. Supera a ciência no seu objeto (o em si) e nos seus objetivos (a humanização do homem na sua globalidade). Supera a ciência através da intuição transcendental, criatividade, meditação e contemplação.
A mente ou entendimento, como construtora da ciência, é, já, através do pensamento, a manifestadora da energia vital do nosso ser autêntico (o númeno). É neste percurso da ciência para o ser autêntico, que a ciência se concilia com a metafísica e esta com a ciência.
Numa linguagem estritamente Kantiana, vou afirmar, com toda a convicção, que a orientação do fenómeno é, por dever, para o númeno, com uma paragem obrigatória na dialética dos contrários, que não se desvalorizam nem se rejeitam, mas cooperam no sentido da construção da união, da paz e da felicidade. Digo também que, por dever, o destino global do fenómeno ? númeno é para Deus, com uma paragem obrigatória no nosso ser autêntico (númeno).




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