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Ai se o ministro Gaspar sabe!

Com a chegada do Inverno, a soturnidade e a melancolia invadem o coração das cidades. Vão-se as esplanadas, a claridade, as manhãs submersas e lavadas, as tardes soalheiras e longas, as noites estreladas e densas, o esplendor na relva. As pessoas, num torpor prolongado de ócios e vigílias, que as orgias do solstício argumentam, abandonam ruas, praças, esplanadas e jardins. É, então, que os poucos bulícios da deusa Natureza se abrem à quietude e ao enternecimento.

Dinis Salgado
23 Jan 2013

E Braga, cidade bimilenar, barroca, augusta e dos Arcebispos, não foge à regra – deste bacanal de entorpecimento e viuvez votiva. Só uma ou outra tarde, mais langorosa e clara, vai consentindo o flanar, esparso e relativo, dos cidadãos mais óbvios.
Já venho do tempo em que nesta nossa cidade as esplanadas não eram o palco habitual de encontros e desencontros, luzes e sombras, bagatelas e ouropéis, conceitos e preconceitos, emoções e fulanismos que, hoje, são. Porque a vida de holofotes, ribaltas e encenações, própria das grandes urbes, alheia é à traça de uma cidade provinciana, maneirinha e comezinha, os bracarenses viviam mais adentro de muros, portas e fachadas.
Porém, os tempos mudaram e, hoje, Braga tem nas suas múltiplas e multímodas esplanadas as salas de visitas, a montra privilegiada da matriz fidalga de qualquer metrópole. A ponto de, contra
geadas e ventos, chuvas e arrepios que são condimentos do Inverno à solta, muitas delas ainda permaneçam, por praças e largos da cidade, pasmadas e hirtas, num desafio ímpar ao abandono e à retracção muscular e à espera de um raio de sol temporão ou de um cliente mais zenónico.
Todavia, e contrariamente ao que se dizia dos cavalos de Átila, chefe dos bárbaros Hunos, que, por onde passassem não mais as ervas cresciam, em algumas destas esplanadas, sob mesas, cadeiras e suportes de guarda-sóis – esqueletos metálicos em paisagens humanas –, num vicejar alvar e jucundo, as ervas despontando vão. O que nos leva a exclamar que verdes são tais esplanadas, mas muito pouco ecológicas e os turistas que nos visitam nelas põem vista grossa e cansada.
Haja, pois, quem arregace as mangas para as fechar de vez e limpar o espaço das ervas e dos lixos invasores que, neste momento, seus únicos clientes são, em demanda do bom tempo e do sol. Até porque, se o ministro Gaspar, com a fome que anda de sacar dinheiro ao contribuinte, vê estas esplanadas assim tão verdes e viçosas afinfa-lhe já com um daqueles pesados impostos, próprios para taxar mordomias e luxos de… Inverno, que os outros lhe vão passando ao lado.
Assim sendo, lícito é perguntar:
– É bom viver em Braga?
E lógico responder:
– Só p’ralguns! Só p’ralguns!
Então, até de hoje a oito.




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