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Um governo lírico

Há tempos, numa entrevista dada ao Diário Económico, Filipe La Féria confidenciava que Passos Coelho, fazendo uso da sua voz de barítono, concorreu a um papel no musical “My Fair Lady” e acabou por ser preterido pelo encenador. Essa sua derrota nos castings acabou por se transformar, por consequência, numa vitória nas urnas e passámos a ter um primeiro-ministro-ex-cantor-lírico.

Paulo Rodrigues
22 Jan 2013

Talvez por isso, lirismo, dependendo do significado que lhe dermos, é algo que, em parte, não falta ao atual Governo. Num sentido mais figurado, este Governo é lírico, é sonhador, pois acredita, ou finge acreditar, sôfrega e cegamente, que as medidas que impõe ao país tirá-lo-ão da crise. E dirige-se, depois de as anunciar, aos seus amigos – nós – em dengosa mensagem via Facebook, escrita muito provavelmente ao som plangente de uma lira.
No meio de tanto lirismo, o orçamento de estado para este ano é uma espécie de poesia, só que de fraca qualidade, desprovida de sentimento e com meras preocupações de ordem técnica, em que a métrica é calculada friamente por folhas de Excel e a rima é limitada ao reduzido vocabulário de um qualquer dicionário de “economês”, no qual não consta a palavra criança.
Caso constasse, este orçamento de estado investiria fortemente nos incentivos à natalidade e em medidas que encorajassem os casais a rejuvenescer este país cada vez mais enrugado. Pelo contrário, este orçamento é altamente contracetivo, senão mesmo abortivo.
Caso constasse, este Governo compreenderia que a aposta na educação de um país é a garantia do seu futuro e que esta não deve ser um joguete nos corredores do Ministério das Finanças. “Eduquem as crianças e não será necessário castigar os homens”, já avisava Pitágoras há 2500 anos.
Caso constasse, encontrar-se-ia na criança a tão desejada e propalada alavanca da economia. Bastam três exemplos para demonstrar que o mercado destinado diretamente aos mais novos é fonte de receitas avultadas: vá a um centro comercial ou passeie pelo comércio tradicional e observe quantas lojas de roupa infantil existem; entre num hipermercado, sobretudo em altura natalícia, e atente ao que está exposto logo à entrada, da forma mais apelativa possível, ou então por ocasião do regresso às aulas; visite uma livraria e dirija-se à secção infanto-juvenil para se aperceber da quantidade de publicações e de autores destinada a essa faixa etária. Isto tudo, entre tantos outros exemplos, num país pequeno e com cada vez menos crianças. Imagine-se se as tivéssemos – ou pudéssemos ter – em números demograficamente satisfatórios…
No entanto, liricamente – e, por ironia, infantilmente – crente nas suas pretensões exclusivamente económicas, nos seus anseios únicos de satisfazer os mercados e nas suas políticas feitas apenas para alemão ver, este governo ignora o poder das crianças e mantém-nas afastadas do orçamento do Estado que criou. E, ao não inclui-las nessa sua tentativa falhada de poesia lírica, compromete inequi
vocamente o futuro do país, sem se aperceber de que, com elas, encontraria muito facilmente uma palavra que, por coincidência ou não, até rima com finanças.




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