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Sobre ser conservador

Haverá rótulos que, com gosto, as pessoas poderão colocar nas lapelas. De facto, podem assumir-se comodamente uns quantos estatutos. Mas há outras rotulagens que são espaços acanhados para onde, muitas vezes, se vai ao empurrão. São, também, frequentemente, lugares desconfortáveis porque pretendem acantonar, definitivamente, a complexidade humana num espaço exíguo. E, ainda, porque nesses sítios as companhias são, amiúde, desagradáveis.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
20 Jan 2013

Usado, indistintamente, para invectivar os que defendem prerrogativas de casta, privilégios, portanto, absolutamente imerecidos, ou os que defendem direitos inteiramente justos, conquistados, tantos, à custa de assinalável sofrimento, “conservador” é um rótulo que quase ninguém aprecia.

Há dias, no Público, o jornalista Jorge Almeida Fernandes (“Eu, conservador? Tu é que és conservador”) dava conta da irrupção do termo “conservador” na pré-campanha eleitoral italiana, contando alguns episódios. No primeiro, Stefano Fassina, o responsável pela economia no Partido Democrático, de esquerda; Nicchi Vendola, líder da Esquerda, Ecologia, Liberdade e aliado eleitoral do Partido Democrático; e Susanna Camusso, a secretária-geral da maior confederação sindical italiana, acusaram o primeiro-ministro Mario Monti de ser um “conservador”. No episódio seguinte, é o acusado que devolve aos acusadores o epíteto de “conservadores”.

Pouco depois, entra em cena um sociólogo e politólogo de esquerda, Ilvo Diamanti. Este professor da Universidade de Urbino, numa crónica publicada no diário La Reppublica, vem dizer que “os conservadores, em Itália, são impopulares. E estigmatizados. Pela esquerda e também pela direita. Ninguém admite sê-lo”. E, algo provocatoriamente, acrescenta: “Pois bem, quero sair do armário. Eu sou um conservador”.

As razões deste posicionamento são apresentadas de um modo simples: “Não arrisco aceitar os caminhos seguidos pela mudança. Muitos deles, pelo menos”. Depois, Ilvo Diamanti enumera com algum detalhe o que não lhe agrada: “A paisagem urbana que me rodeia. E me assedia. A praga imobiliária que avança sem regras e sem parar. O enfraquecimento das relações pessoais e dos laços comunitários. O declínio das referências de valores – inclusive dos tradicionais. A família reduzida a um centro de serviços, a um bunker sob assédio. A retórica do individualismo exibicionista e possessivo. Que quer que todos sejam empreendedores. A Internet como único ‘espaço’ de comunicação. O smartphone que substitui o diálogo entre as pessoas. O tweet no lugar da palavra. As relações sem empatia. As pessoas dispersas que falam – e riem, imprecam e murmuram – sozinhas”.

A lista das mudanças que pioraram a vida das pessoas prossegue: “O trabalho sem regras e sem continuidade. A flexibilidade sem fim e sem um fim. Ou seja: a precariedade. A política sem sociedade, o partido pessoal, resumido num vulto e numa imagem. Onde os consultores de marketing substituíram os militantes. Onde, em vez de sessões, há sondagens”.

Ilvo Diamanti não gosta, em suma, “das personagens, dos intérpretes e dos lugares da modernidade líquida” (um conceito usado pelo sociólogo Zygmunt Bauman para caracterizar esta época em que tudo é volátil). “Não me agradam. Conheço-os, mas neles não me reconheço”. O texto termina com o sociólogo a declarar que prefere “conservar” o que resta: “do território, da comunidade, das relações pessoais, da economia ‘justa’, da política como identidade. O ‘novo’ como valor não me atrai. Admito: sou um conservador. E orgulho-me disso”. Na acepção de Ilvo Diamanti, ser “conservador” não é muito mais do que ser dotado de alguma réstia de sentido das coisas.

Um dos mais revolucionários compositores do século XX, Arnold Schoenberg, dizia que era um conservador que tinha sido forçado a ser revolucionário. Agora, quando os jornais enchem, permanentemente, as primeiras páginas com anúncios de revoluções (e quanto arcaísmo não anda sob a bandeira da revolução…), que afectam tanta gente merecedora de recato, talvez a revolução verdadeiramente necessária pedisse, por agora, para usar o título da mais recente crónica de Ricardo Araújo Pereira na Visão, que o mundo fizesse o favor de estar quieto. Por dois ou três anos. Pelo menos.




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