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S. Félix e a cura da enurese

Por um acaso feliz, numa visita ao Monte de S. Félix, em Laúndos, Póvoa de Varzim, encontrei um velho amigo que, a propósito daquele local, me falou da devoção popular que associa o santo que aí se venera à cura da enurese. Disse que a filha, em pequenina, sofrera de enurese (descontrole involuntário do esfíncter da bexiga ou esfíncter vesical) e, depois de andar bastante tempo com ela num médico e de não haver progressos no controle do esfíncter vesical, o próprio médico lhe terá dito: “este é um caso para S. Félix tratar”. Lá veio ele com a filha, a esta capela de S. Félix, rezar pela sua cura e o resultado terá sido extraordinário: ao outro dia, já não precisou mais de usar fraldas. “Foi um milagre”, disse ele.

M. Ribeiro Fernandes
20 Jan 2013

Sem pretender pôr em dúvida a convicção dele de que foi um milagre, até porque não sei mais do caso do que este simples relato, tenho de concluir que, se não foi um milagre, foi, pelo menos, uma cura extraordinária.
1. No processo da cura da enurese, há muitas coisas que ainda não sabemos explicar. Posso dizê-lo com algum conhecimento de causa, porque já tratei vários casos de enurese que, ao fim da primeira sessão psicoterapêutica, também ficaram curados; mas, outros demoraram mais e alguns nem sei como acabaram, porque perdi o contacto com eles: deixaram de aparecer na consulta. A enurese é uma disfunção muito sensível e específica em que não há apenas o mal-estar do paciente, mas também outras interferências, de figuras parentais que, muitas vezes, acabam por funcionar como sua causa.
2. Antes de continuar e só para situar o referido Monte de S. Félix, é uma elevação com cerca de 200 metros acima do nível da linha do mar que, pela sua importância estratégica como ponto de observação e de defesa, terá sido antigamente um castro importante naquela zona. Aí foram encontrados objectos que remontam aos séculos I e II antes de Cristo. Hoje, está transformado num local de turismo e de culto religioso em honra de S. Félix, muito bem urbanizado e com uma deslumbrante vista em toda a volta do horizonte, nomeadamente para o mar. Acredita-se que nesse monte terá vivido um eremita, de nome Félix, que localizou o corpo do mártir S. Pedro de Rates, que foi o primeiro arcebispo de Braga.
2. Feito este reparo contextual, não sei porque é que, nessa zona e não sei se noutras, atribuem a S. Félix essa especialidade taumaturga relacionada com a enurese. O que sabemos é que, genericamente, em situações difíceis, sempre as pessoas recorreram a alguém que acreditam estar acima delas, a Deus ou aos santos para chegar a Deus. É a reacção natural do sentido de religiosidade e da consciência dos nossos limites. Não é de estranhar, por isso, que, à medida que a ciência avança, o campo deste tipo de devoção religiosa tenda a diminuir e as pessoas se vão passando da esfera do religioso para a esfera da ciência. Mas, isto não quer dizer que a ciência venha, algum dia, a substituir a religiosidade. O âmbito da religião é a procura do transcendente e essa procura, que está inscrita no nosso íntimo, está para além da ciência, porque a transcendência de Deus não é atingível pela ciência. Por muito que a
ciência evolua, por muito que cada vez maior número de situações em que, dantes se recorria à religião sejam agora explicadas e resolvidas pela ciência, ela será sempre limitada porque não pode atingir o absoluto. Mas, deixemos esse assunto e voltemos ao caso da cura da enurese.
3. A enurese é uma situação humilhante para a criança e um dos distúrbios que mais melindra o sujeito, podendo até causar graves transtornos de personalidade que ficam para toda a vida. Na maioria dos casos, a criança é humilhada por urinar na cama, mesmo que não seja por sua culpa, pois isso é inconsciente. Mesmo que se diga que a criança não o faz por querer, os adultos pensam sempre que a criança o faz por querer. E criticam-na por isso. Às vezes, até o fazem intencionalmente, para a envergonhar, pensando que assim ela se vai corrigir. O “DN” publicou, no dia 17 de Janeiro, uma notícia sobre o julgamento de uma mulher acusada de matar à sede uma criança de 10 anos, impedindo-a de beber qualquer líquido, durante 5 dias, como castigo por ela urinar na cama. A criança terá morrido desidratada. Para ajudar a compreender este caso, o pai da criança é cego e a mulher, madrasta do filho dele, não lhe disse nada sobre o que se passava.
Nunca tive conhecimento de mau trato tão violento, mas, mesmo nos casos em que a mãe é mais compreensiva, as crianças sentiam-se humilhadas e sofriam muito com isso. Talvez por causa destas características envolventes, a enurese é um distúrbio difícil de abordar.
Vamos falar disso, em próximo artigo.




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