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Pausa democrática…

Corria o longínquo ano de dois mil e oito e era quase Natal. Os funcionários públicos e as suas famílias ainda ponderavam o destino a dar ao subsídio, pese embora soubessem já que o seu percurso profissional e remuneratório estava destinado à lógica da “ordem unida”, ou seja, a marcar passo como muitos deles haviam feito aquando da sua ida compulsiva para o serviço militar e, na sua maioria, agraciados com um voucher para visitarem os paradisíacos destinos ultramarinos.

A. Gradim Rocha
20 Jan 2013

Manuela Ferreira Leite, indefetível democrata, declarava aos microfones da TSF:  “(…) quando não se está em democracia, é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se; e até não sei, se a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem (…)”. Entusiasmada, prosseguia na sua lógica democrata: “Em política, há que fazer política exactamente utilizando medidas de acordo com os factos que se nos deparam no momento, porque se houvesse uma receita para tudo igual, não era necessário ministros, o que se calhar era um benefício para o país (…)”.
Os ociosos rapazes das claques partidárias que, numa analogia ao título de um dos livros de Alberto Pimenta, sendo ainda pequenos auspiciavam vir a ser grandes, ouviram-na e adotaram a doutrina da sua líder, para uns, ou da líder dos seus amigos, para outros, de quem só não eram correligionários porque, sendo tantos, só distribuídos por diferentes partidos poderiam dar azo à sua ambição.
Em perfeita sintonia com a escola do poder vigente que, sem escola, se afirmou pelo autodidatismo e pela capacidade de improviso – capacidade louvável nos dançarinos mas não nos gestores dos desígnios de uma nação – estes rapazes, aproveitando a onda bolonhesa e o tsunami da ausência de escrúpulo de instituições que, ao invés da credibilidade e ao arrepio da tradição, surfaram no túnel do compadrio e da corrupção, diplomaram-se nas mais variadas especialidades mas, invariavelmente com pós graduação na subtração seja dos seus deveres, seja do respeito pela dignidade de um povo, seja pelo valor da honra pela qual se deveriam pautar mas cujo conceito desconhecem.
E chegaram ao poder!
Lá chegados, fazem política utilizando medidas de acordo com os factos que se lhes deparam no momento porque a ponderação das medidas e o planeamento das ações supera o seu resíduo intelectual. A necessidade da criação de cargos para ministro, que não era necessária porque a receita é sempre igual, é uma recompensa pelas suas idiossincrasias amorfas e não um benefício para o país.
Quando a conversa é outra, não se está em democracia.
Não consta que Pavlov fosse democrático com as cobaias da sua experiência, desde logo porque não conversavam! Ele dizia como é que era (induzia o estímulo) e os cachorros faziam (babavam-se prazerosamente) …
Seis meses sem democracia seriam uma eternidade, mas é o tempo mais do que suficiente para que os atuais políticos e os beneficiários das políticas que têm vindo a ser levadas a cabo, desde há décadas, possam renunciar à sua sobranceria e insensibilidade enquanto ela existe e o povo não decide meter tudo na ordem!




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