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Os votos para 2013

E ao 19.º mês de troika em Portugal demos por nós a ter alguma dificuldade em desejar o habitual Próspero Ano Novo, preferindo o Ano Novo com muita Saúde, o Bom Ano Novo ou até, na versão otimista, o Feliz Ano Novo. Quase como se no subconsciente coletivo, mais do que nunca, estivéssemos capacitados do quão duro é o caminho que ainda falta percorrer e começássemos a incorporar a ideia de que, no imediato, os “trabalhos” não são compatíveis com prosperidade automática.

Nuno Reis
19 Jan 2013

Mas se hoje já não há lugar para mensagens fora da realidade que nos prometem, a cada dia, os amanhãs que cantam, também não há razão para cavarmos o «buraco» da depressão coletiva. Ter consciência das dificuldades é uma coisa. Deixarmo-nos bloquear por elas é outra. O medo paralisa e é necessário que todos, empresários, políticos, profissionais dos mais diversos sectores, transmitam uma mensagem de confiança, em si próprios e na comunidade.
A previsão de crescimento da economia da zona euro em 2013 aponta para um valor abaixo dos 0,5% do PIB da região. Já para os Estados Unidos prevê-se um crescimento de 2% e para os paí-ses emergentes qualquer coisa como 5,8%.
Estes dados configuram uma tendência inexorável que já vem dos últimos anos. A globalização significa também isso: uns crescem mais, outros vêem a sua riqueza produzida diminuir em termos relativos. Para a China, ou, se quisermos ser mais latos, a Ásia como um todo, crescer e enriquecer, Europa e Estados Unidos terão de crescer menos. A base de que uns e outros partem também não é a mesma, daí que, no final, o bem de uns pode não ter de significar o mal de outros.
À luz desta macrotendência, o saber se podemos desejar um Próspero Ano Novo ou, para aludir à “discussão de réveillon”, se as palavras do Presidente da República encerram em si uma declaração de guerra ao Governo, são questões de importância relativa. Saber como cada um de nós, e aqui não se incluem apenas os portugueses mas os cidadãos europeus em geral, está preparado para combater a perda de influência (económica e política) é a grande questão das próximas décadas. Estarão os agentes das economias desenvolvidas conscientes desse desafio?
Com troika, agora, ou sem ela – esperemos que em breve – é crucial perspetivarmos o país que queremos a médio/longo prazo. É hoje claro que, para uma economia pequena e tão aberta como a nossa, um modelo de crescimento baseado em investimento público não reprodutivo e em consumo, financiados por dívida externa, tão mais insustentável quanto menor for a capacidade de a pagarmos, não é desejável. O caminho certo, esse, demorará o seu tempo a construir: criar valor, comercializar bens que os outros países queiram comprar e a preços competitivos, exige muito. O que já era exigido quando os primeiros “Medinas Carreira” deste país ousaram levantar a voz quanto a um certo consenso instalado e denunciaram a insustentabilidade de uma certa política. Escolas e universidades de nível internacional, tribunais que funcionem e em tempo útil, sistema fiscal mais competitivo, estruturas de distribuição eficientes, para tudo isso teremos de trabalhar. E somos capazes!
A ideia de que temos que construir esperança não é incompatível com a noção de que 2013 não será um mar de rosas. Ser bem sucedidos na implementação das medidas do Programa de Assistência Financeira e, ao mesmo tempo, manter a coesão social é o grande desafio imediato. Concretizá-lo pode significar o dobrar do “cabo das tormentas” mas a passagem para a “boa esperança” não significa que poderemos voltar ao modelo anterior. Isso já lá vai.
Mais do que falar num ano difícil é avisado reconhecer que o processo de ajustamento dos desequilíbrios económicos que nos levaram a pedir assistência financeira é mesmo isso: um processo. Acreditarmos nas nossas capacidades é o primeiro passo para tornar os próximos tempos menos difíceis.
A todos, um 2013 com disponibilidade para ajudar quem precisa, vontade de vencer, garra para trabalhar e esperança no futuro.




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