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O Racionalismo No Pulmão da nossa Vida Existencial

A acertadíssima filosofia popular diz: – Quem bem faz a cama bem dorme nela. Então, é lógica e coerente a afirmação de que numa cama mal feita, não se dorme bem. Neste artigo vou simbolizar o racionalismo pela cama, feita unicamente pelas habilidosas mãos da Razão. Deitados nesta cama, ainda acordados, vamos hipoteticamente ver como iremos passar a noite. Vamos, com o auxílio dos historiadores, apresentar um esboço geral dessa cama, feita só pelas mãos arquitetónicas da Razão.

Benjamim Araújo
16 Jan 2013

O que é, então, a Razão, a fazedora dessa cama, apelidada de Racionalismo? Segundo os racionalistas, a Razão é definida como sinónima de todas as forças espirituais, fundamentais e independentes.
Como força espiritual independente, querem atribuir à Razão o caráter de autonomia. Por isso, as forças que dela brotam, são próprias da sua natureza a qual é ser, exclusivamente, racional. Vamos, então, despi-la das sensações, emoções e sentimentos, pois a Razão basta–se a si mesma. Diz Kant “Serve-te do teu próprio entendimento. Sai da incapacidade de te servires do teu entendimento, sem a direção que lhe pode vir do exterior”. A Razão possui, por si, uma força única, infalível e omnipotente. É soberana.
A Razão, por vezes, para confirmar o seu poder e independência, de forma clara e distinta, aos que disso duvidam, serve-
-se da razão crítica ou libertadora. Deste modo, através da crítica, a Razão liberta-se de toda a autoridade exterior, não reconhecida como tal pela sua própria autoridade, que emana de si. A razão vai libertar-se das aderências de toda a superstição, idolatria e sacralização (Religião, Teologia). Contudo, há algo aqui que me intriga: o não reconhecimento da sua ilusão e a incapacidade de se libertar dela.
Perante esta preponderância da Razão, que fazer? Vamos submeter a noção ilusória da Razão racionalista ao juízo que dela vai fazer a verdadeira e autêntica Razão. Esta, como construtora dos seus pensamentos, tem, também, a sua natureza. Porém, esta natureza, não é a força espiritual pura, como dizem os racionalistas, mas sim uma força materialmente espiritualizada. Posto
isto, vamos afirmar, como verdadeiro, que a Razão autêntica é a manifestação real da energia vital do nosso autêntico ser ôntico.
Questiono: – De onde emana, então, a autonomia da Razão? O racionalismo afirma que esta autonomia emana da própria Razão. Esta afirmação será verdadeira? Não, porque tal afirmação procede de uma ilusão. A fonte de onde emana a autonomia da Razão bem com a sua autoridade, poder e soberania é o ser autêntico, real e profundo. A Razão é, verdadeiramente, autónoma, livre, soberana e poderosa quando se manifesta, no tempo e no espaço, como um instrumento às ordens do ser autêntico, com o qual estabelece união, sintonia, conexão e liberdade.
Esta Razão não aceita, por ordem da unicidade do ser, as violências da discriminação, da rejeição, da radicalização, do autoritarismo. Pelo mesmo motivo, a Razão incentiva-se, por si mesma, à união, cooperação, colaboração, harmonia, progresso e paz na verdade e na justiça.
Se a Razão continuar atolada no poço da ilusão – gerador de pesadelos, insónias e remorsos – continuar a ser sinónima de todas as forças espirituais, fundamentais e independentes e se ignorar os laços indeléveis que a unem à onticidade da sua racionalidade, não acontece nada do que de bem se afirmou da Razão.
É a partir desta rotura da Razão racionalista com o ôntico, que se gera o tumor, cujas metástases se espalham, progressivamente, por todo o corpo social, religioso, político, económico, cultural e civilizacional.
Tudo isto se canaliza para se estabelecer uma distinção entre racionalismo, fator de tantos desvarios, e racionalização como procura do ser através da verdade, da vivência do bem e da justiça.




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