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Heróis do mar

Em tempos que já lá vão, quando o bacalhau era o fiel amigo entrada franqueada tinha em todos os lares portugueses, nem que fosse na modesta condição, com vossa licença, de rabo para adubar um cozido de batatas com couves-galegas. Todavia, tal como os bombardeamentos da troika, a tabuada do ministro Gaspar ou os humores da sogra, os tempos constantemente mudam e se, hoje, de fiel a infiel amigo passou e, até, os proletários chicharros e sardinhas burgueses viraram, a culpa está nas costas que pelos homens viradas ao mar foram, ao grande e generoso mar que Estrada Larga já foi do nosso expansionismo e conhecimento.

Dinis Salgado
16 Jan 2013

E trágico é sabermos que a esta situação chegámos, desmantelando barcos, desaparelhando redes e arriando velas, porque a isso as políticas da União Europeia nos obrigaram. E, tão-somente, a troco de subsídios e negociações de cotas e acordos bilaterais que nos puseram na ilusória condição de consumidores em vez de produtores, de agentes passivos em vez de agentes ativos dos nossos desígnios de comunidade autónoma, independente e suficiente.
Depois, somos o primeiro país da União Europeia e o terceiro do mundo no consumo de peixe. Todavia, importamos dois terços do pescado que consumimos. E, face à zona marítima exclusiva que possuímos – a maior dos países da União – este abandono do mar não tem uma explicação cabal. Quando muito deve-se a políticas e negociações erradas, a cedências e demissões levianas e, sobretudo, a interesses dos membros mais poderosos e ricos da União que sempre fazem dos mais fracos e pobres os bodes expiatórios dos seus nepotismos económicos, financeiros e culturais.
Temos o mar, o grande e generoso mar à porta e de braços abertos para nos receber, como nos tempos áureos em que, embarcados em cascas de noz e guiados, apenas, por estrelas e mapas desenhados à mão e nos joe-
lhos, chegámos mais longe e mais além, dele fazendo a Estrada Larga da nossa mundividência e multiculturalismo. E as riquezas que em seu seio alberga, inesgotáveis, disponíveis e acessíveis, podem bem ser, neste momento de carestia, angústia e desesperança nacional, tal como o turismo, a agricultura, o calçado ou o artesanato, a nossa tábua de salvação.
Por isso, um regresso, urgente e em força, ao mar é a palavra de ordem. E se, povo de marinheiros que sempre fomos, a arte e o engenho nos contemplam, só temos que novamente reconstruir os barcos, aparelhar as redes, içar os mastros e desfraldar as velas. Que a hora não pode ser de tibiezas, de tergiversações, de baixar os braços. Mormente, de dar ouvidos aos Velhos do Restelo de uma União Europeia, apenas, feita ao jeito e gosto dos seus membros mais ricos e poderosos com o consentimento e passividade dos nossos governantes.
E, em vez de cantarmos como o poeta ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal, cantemos antes ó mar salgado, quanto do teu sal são sorrisos e ouro de Portugal! E, até, para deixarmos de praguejar:
– Porra, vai cá uma nortada!
Então, até de hoje a oito.




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