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Suspensos na encruzilhada!

Se fizermos uma análise dos múltiplos condicionalismos a que fomos conduzidos pela necessidade do financiamento excecional proporcionado pela “troika”, chegaremos à conclusão que o país se encontra numa verdadeira encruzilhada. Incorporando um significado de mistério, imprevisibilidade e ocultação, não encontro palavra mais adequada para definir a situação do país no momento presente.

J. M. Gonçalves de Oliveira
15 Jan 2013

Sem pretender ser impertinente, nunca será demais recordar as circunstâncias que nos trouxeram tamanha humilhação. Deste modo, será importante dizer que as causas remontam à entrada de Portugal na Comunidade Europeia. Logo aí, o deslumbramento como que toldou a razão aos portugueses que, a troco de dinheiro aparentemente fácil, deixaram destruir grande parte do seu aparelho produtivo. Pouco depois, foram proliferando sentimentos de megalomania a que se foram juntando muitos vícios que progressivamente corroeram a responsabilidade no serviço à causa pública. Entre outros, o clientelismo que se foi instalando nas oligarquias dos poderes vem assumindo importância relevante e tem contribuído para minar a credibilidade do nosso sistema democrático.
 Nos anos imediatamente precedentes à necessidade do pedido de ajuda que nos hipotecou a soberania, todos estes delitos foram exponenciados com presunção e irresponsabilidade acrescidas. Relembrar o TGV, o novo aeroporto de Lisboa, a nova travessia sobre o Tejo e muitas outras obras então apregoadas é um bom exercício de memória que devemos fazer para enquadrar as causas próximas na origem do nosso verdadeiro desastre.
Em falência iminente, não nos restou outra saída senão aceitarmos o resgate e cedermos independência. O capital que necessitamos para sobreviver tem chegado em frações e, com cada uma delas, a verificação de um rol de exigências, tal e qual se faz a um jovem problemático que pretendemos reeducar. É esta a situação de Portugal.
Aqui chegados, temos que ser capazes de corrigir os erros e de mudar de rumo. O diagnóstico está feito e, de uma forma simplista, diz-nos que vivemos muito tempo acima das nossas reais possibilidades, gastando o que não tínhamos.
Sem outro rumo plausível, é necessário encarar o momento do país com coragem e sabedoria, iniciando um caminho de regresso a um passado não muito distante. É urgente investir nos nossos recursos, produzir o que formos capazes e tornarmo-nos menos dependentes. É imperioso repensar o sistema de ensino e readaptá-lo às necessidades deste retorno. Não podemos continuar com um ensino profissional onde muitas das opções oferecidas aos jovens não passam de embustes e miragens.
Na senda desta grande volta, a que não poderemos fugir, há cuidados que não devem ser esquecidos, sob pena do caminho se tornar mais penoso. Voltar aos campos ou ver no mar melhores perspetivas de vida será difícil, sobretudo, em regiões que sofreram nos últimos anos marcados fenómenos de desertificação e onde muitos serviços públicos são meras recordações. Por isso, há que criar as condições para atenuar os seus efeitos, mas principalmente é fundamental restituir honestidade e verdade à política. Impõe-
-se que cada ator político despoje muitas das máscaras que utiliza e seja mais transparente. Só deste modo terá a aceitação do cidadão anónimo e o levará a reconhecer a inevitabilidade das indispensáveis mudanças.
Na ordem do dia, estão estas e outras transformações que teremos de encetar a breve prazo. A diminuição da máquina burocrática e o papel do Estado Social são duas dessas vertentes que têm feito correr torrentes de opiniões. No essencial, para atingirem os objetivos a que se destinam é importante manter a paz social. É imperioso fazê-lo com justiça, equidade e com respeito pelos mais frágeis. Em diferente patamar, mas não menos importante, é urgente fazer baixar a carga fiscal, valorizando o trabalho, para que o esforço e o mérito sejam devidamente compensados e o apregoado elevador social volte a funcionar sem sobressaltos.
Na complexa encruzilhada a que chegamos, onde até não faltaram dúvidas constitucionais sobre algumas medidas do orçamento, é urgente ter a coragem de mudar.




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