Fotografia:
Porque diminuem as Confissões? (6)

Se quiséssemos encontrar, em termos dinâmicos, o lugar da Confissão dentro do espírito do grupo restrito de cariz religioso, onde há uma certa fusão psicológica dos indivíduos no todo, diríamos que a confissão tenderia a acontecer em grupo (era por isso que o Apóstolo Tiago 5;16 recomendava: “confessai os vossos pecados uns aos outros). Mas, isso era no contexto dos primeiros núcleos de cristianismo, que viviam como grupos primários de tipo religioso.

M. Ribeiro Fernandes
13 Jan 2013

Com o decorrer do tempo, porque isso era demasiado exigente e nem todos eram capazes de o fazer e nem sempre o grupo reagia de forma adequada, a prudência e a experiência da Igreja foi aconselhando uma outra prática menos exigente: a Confissão individual, perante alguém que a represente (que, como já referimos, nem sempre foi um clérigo). Mesmo assim, há quem recuse a confissão particular e prefira a celebração penitencial pública, pelas razões a que já aludimos. Outros preferem a confissão apenas a Deus na intimidade da sua consciência.
São modos diversos de proceder que configuram estádios indicativos da vida do sujeito em grupo religioso (ou falta de dela) e também indicações do tipo de prática da Igreja e do modo como ela é percebida.
Quer isto dizer que o interesse pela Confissão funciona como indicador do modo como é percebida e sentida a vida em Igreja.

1. Sabemos que a comunicação afectiva com o outro é essencial no funcionamento da nossa personalidade e, por isso, ela é psicologicamente poderosa; tão poderosa que se pode dizer que dificilmente há psicoterapia sem relação de alteridade. Penso que a Confissão se insere na dinâmica desta relação pessoal, embora a religião reclame um significado que transcende a mera relação pessoal. Mas, quando se diz que a transcende, é porque ela existe. Se não existe, nada feito.
É um facto que, na actual vida da Igreja, falta a percepção e a vivência do tipo de grupo primário, em que os respectivos membros têm entre si laços afectivos íntimos e pessoais, que se manifestam na confiança e na solidariedade. Tem-se limitado mais à preocupação individual, expressa institucionalmente em celebrações de multidão. Ora, sem essa vivência mais pessoal e mais íntima no grupo vivência e sem essa percepção, a Confissão dificilmente faz sentido, a não ser como necessidade psicológica de desabafo e de catarse da ansiedade. E, pior ainda, quando acontece num clima de rotina quase impessoal ou é representada como um tribunal, ela que é essencialmente um momento de acolhimento e de reconciliação fraterna.

2. Já aqui escrevi que o desenho e expressão plástica da nova igreja de Fátima, em forma de círculo, com 12 portas de entrada (referentes aos 12 apóstolos) que vão confluir na entrada principal, que representa Cristo, da qual todas as outras dimanam, configura os irmãos à mesma mesa e foi um sinal avançado para representar a mudança de concepção da Igreja-Hierarquia para a concepção da Igreja-Povo de Deus. Como escreveu J. Marques Fernandes: “quando os Padres Conciliares pensaram na Constituição Dogmática “Lumen Gentium” como lei fundamental da Igreja, prevaleceu a consciência de que o capítulo sobre a Igreja-Povo de Deus devia prevalecer sobre o capítulo da Igreja-Hierarquia”. Mas, isso não se cumpriu. Por isso, é pena que a desfigurem ao colocar no palco cadeirões de poder, que remetem para antiga imagem da Igreja-Hierarquia de poder religioso com o altar em frente.
O altar só faz sentido para a antiga tradição judaica, que praticava sacrifícios de animais (há religiões que até praticavam sacrifícios humanos), nada têm a ver com a intimidade humana da mesa da Ceia da eucaristia. Voltado para o altar, como no antigo templo, vemos um povo silencioso e temeroso do Deus da ira, que é preciso aplacar com sacrifícios; mas, à volta da mesa da Ceia do Senhor, reúne-se o Povo de Deus que celebra com alegria e humildade a salvação e se sente em família. O povo que a este templo acorre não vai assistir a sacrifícios, mas vai reunir-se fraternalmente como grupo que tem em comum a mesma fé e onde o amor é a única regra de vida, sem classes nem poderes religiosos.
Só dentro deste espírito fraternal a Confissão faz sentido, na medida em que a suave exigência do amor requer sempre de cada um que seja melhor.
Assim, a crise da Confissão não é causa da crise da Igreja, mas é o seu espelho. A crise da Confissão exprime a necessidade de purificação das representações e das práticas da Igreja. Não faz falta um novo concílio; o que faz falta é cumprir este.




Notícias relacionadas


Scroll Up