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Críticas e denúncias vagas não são caminho

É verdade que a hierarquia da Igreja, por fidelidade à sua missão, não pode passar ao lado dos problemas sociais do país, mormente dos que mais afetam a vida dos cidadãos. Há sempre uma palavra que pode ou deve dizer-se ou uma reflexão a propor, apoiada nos objetivos da doutrina social da Igreja para a ordenação da sociedade. Nada disto dispensa o respeito pela autonomia do Estado laico e pelo seu direito de decidir, em função do conjunto da comunidade, tendo em conta que o Estado é laico, mas o povo, no seu conjunto, não o é. Deste modo, fazer críticas e denúncias vagas, como ouvimos a gente responsável, não parece ser o caminho certo.

D. António Marcelino
13 Jan 2013

A hierarquia eclesiástica não pode esquecer que, se há uma crise social no país, em parte causada por ações e omissões de governantes das últimas décadas e pela conjuntura internacional que nos afeta, a Igreja, em si mesma, nos seus objetivos pastorais e nos meios de que dispõe, vive também uma crise grave para que não se vislumbra saída fácil. Ora, quem tem telhados de vidro deve ser cauteloso ao atirar pedras.
A crise da Igreja é por demais manifesta. Não é crise de morte, mas também não se resolve por milagre, por proclamações de boa vontade e por empurrões de poderes exteriores, por apontar para fora. O problema está diagnosticado. Há que encará-lo e atender às suas causas.
Não se trata de uma situação recente e passageira. Paulo VI falou, de modo claro, do divórcio entre a fé e a cultura moderna. Com esta advertência o problema maior da Igreja ficou na praça pública. Ela assumiu que, fruto das mudanças sociais e culturais e da rotina pastoral que arrastava há séculos, a crise se tornava permanente e a sua condição passou a ser de luta e sofrimento para dar testemunho da verdade em que acredita e propõe, e ser sinal credível de reconciliação e salvação.
O Vaticano II foi um grito de alerta e de proposta de caminhos novos. A Igreja sentiu-se Povo de Deus e não instância clerical. O grito conciliar acordou a sociedade, atenta e desperta para o fermento renovador que se anunciava. O propósito de João XXIII chegara longe e o seu sentido não deixava dúvidas. Paulo VI foi timoneiro esforçado no meio de tempestades dispensáveis. João Paulo II levou aos lugares mais remotos do planeta o projeto conciliar, e Bento XVI, na mesma rota, recordou que o Vaticano II, é hoje bússola e farol para a Igreja. Porém, passados cinquenta anos, parece que se está a recuar, que os nostálgicos de formas velhas voltam à ribalta, que em vez de um esforço evangelizador sério se abrem portas a expressões ligeiras e fáceis de uma pastoral inconsequentes.
Que há vida na Igreja ficou claro com o testemunho das suas instituições sociais na primeira linha de apoio aos mais pobres e aos atingidos pela crise. Mas a vida da Igreja não se identifica com tarefas ocasionais. Centra-se toda ela num permanente esforço evangelizador, anúncio e proposta de Jesus Cristo, que dá sentido de vida e de fecundidade aos crentes e às atividades pastorais e apostólicas.
A crise da Igreja no exercício da sua missão é mais profunda que a da sociedade. É crise das pessoas que não aceitam converter-se, nem têm para isso propostas que as motivem, crise de insensibilidade ao essencial, cansaço ante as dificuldades, tentação de um individualismo estéril, espírito de profissionalismo do sagrado, falta de sinais credíveis, pessoais e comunitários, crise provocada pela falta de reflexão e diálogo.
Não faltam quem reme no sentido certo mas nem sempre com quem a acompanhe. A Igreja é mais útil à sociedade na medida em que olha para si e se empenha a sério na sua própria renovação. A sua singularidade não é a de um sindicato nem partido. As suas críticas e denúncias não podem ser vagas, mas sempre visando o fundamental, quando não respeitado.




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