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Choque e pavor

Uma leitura recomendável para estes dias é A doutrina do choque. A ascensão do capitalismo de desastre (Carnaxide: SmartBook, 2009). Mas quem não tiver tempo para ler integralmente esta obra da ensaísta canadiana Naomi Klein, que venceu a primeira edição do Prémio de Escrita da Universidade de Warwick, no Reino Unido, pode encontrar no site do Instituto Humanitas Unisinos, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Brasil, pertencente à Companhia de Jesus, algumas entrevistas e textos da autora, que permitem compreender facilmente o que é a “doutrina do choque”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
13 Jan 2013

A “doutrina do choque”, explica a ensaísta, estabelece os princípios de como tomar conta do poder para promover certos objectivos políticos e económicos. Para os seus adeptos, a melhor ocasião para impor as ideias mais radicais é no período a seguir a um grande choque, que pode ser uma catástrofe económica, um desastre natural ou um ataque terrorista. O que sucede é que esses momentos, esses choques, enfraquecem as sociedades. Desorientam as pessoas. “E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa ‘janela’ pode-se introduzir aquilo que os economistas designam por ‘terapia do choque económico’”. O choque económico, prossegue Naomi Klein, “é uma espécie de cirurgia extrema a países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de uma reforma aqui, outra ali, mas sim uma mudança de carácter radical”.
O economista que melhor personaliza este trabalho doutrinário é Milton Friedman, que foi conselheiro da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e dos presidentes dos Estados Unidos da América Ronald Reagan e George W. Bush. A biografia citada por Klein inclui a assessoria, nos anos setenta, do ditador chileno Augusto Pinochet e, mais tarde, do Partido Comunista da China. Friedman, resume a ensaísta, considerava que o único papel aceitável que o Estado podia desempenhar era promover contratos e proteger fronteiras. “Tudo o resto deve ser entregue, por completo, ao mercado, seja a educação, os parques nacionais ou os correios, tudo o que possa produzir algum lucro”.
Naomi Klein mostra como os momentos de choque – naturais ou provocados – servem para impor políticas rejeitadas pela grande maioria das pessoas. Tais políticas, nota Klein numa outra entrevista (“A contra-revolução do neoliberalismo”), visam mover uma guerra contra os trabalhadores e privatizar o Estado social. O modo como o “capitalismo do desastre” opera pode ser sintetizado assim: “Produz-se uma crise, espalha-se o pânico e os ideólogos ocupam a brecha, reorganizando rapidamente a sociedade em conformidade com os interesses das grandes entidades corporativas”.
No texto “Os capitalistas do desastre”, Naomi Klein enumera os vários géneros de desastres: factos tangíveis, tais como guerras, ataques terroristas e desastres naturais, e, com mais frequência, crises económicas, endividamento crescente, hiperinflação, choques monetários, recessões. À lista é acrescentada a inquietante perspectiva de um importante (e verdadeiro) assessor do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial (cujo nome a ensaísta refere), que, durante uma conferência, equacionou a legitimidade de se provocarem deliberadamente crises para eliminar os obstáculos políticos às reformas.
“Não há dúvida de que os países em situação desesperada costumam fazer todo o necessário para conseguir sair da confusão”, observa Klein. De facto, “uma atmosfera de pânico deixa os políticos com as mãos livres para introduzir mudanças radicais, que, de outro modo, seriam muito impopulares”. É o caso, por exemplo, da privatização de serviços essenciais e da redução da protecção dos trabalhadores. Numa situação de crise, “o debate e o processo democráticos podem ser descartados com facilidade”.
“A forma como se dá a resposta às crises é sempre altamente política”, escreve Naomi Klein, registando, a propósito, “uma ironia”. É que foram as grandes crises de outrora que deram lugar, nos Estados Unidos da América, a algumas das grandes políticas em favor dos mais desprotegidos. Depois do dramático crash de 1929, promoveu–se o pleno emprego, as grandes obras públicas e a sindicalização massiva. E o sistema de segurança social que o “capitalismo do desastre” deseja ardentemente desmantelar na totalidade foi uma resposta directa à Grande Depressão.
Cada crise é uma oportunidade e alguém a explorará, explica Naomi Klein. Para ela, “a questão é a seguinte: esta confusão será um pretexto para transferir ainda mais riqueza pública para mãos privadas, e com isso apagar, até ao último vestígio, o Estado de bem-estar social, sempre em nome do crescimento económico? Ou, pelo contrário, será este último fracasso dos mercados não regulamentados o catalisador necessário para reviver o espírito do interesse público, e levar a sério as crises de nosso tempo, desde a crescente desigualdade até ao aquecimento global e às defeituosas infra-estruturas?”




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