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A minha leitura(1)

Cada ano novo traz consigo a expectativa de um mundo melhor. Nesta perspetiva, peço a Deus, Pai da humanidade, que nos conceda a concórdia e a paz a fim de que possam tornar-se realidade, para todos, as aspirações de uma vida próspera e feliz”. Estas, as primeiras palavras da Mensagem de Bento XVI para a celebração do 46.º Dia Mundial da Paz. Vinda de quem vem e cimentada por um autoridade de todos conhecida (Ratzinger desde há muito que é considerado um dos maiores estudiosos do nosso tempo), para além da sua condição de Sumo Pontífice, esta Mensagem como que sintetiza uma lógica de pensamento e doutrina que a ninguém poderá ficar indiferente.

Domingos Alves
12 Jan 2013

Refletindo sobre as causas da ausência de paz no mundo, o Papa salienta as “crescentes desigualdades entre ricos e pobres” e a “mentalidade egoísta e individualista” dos seguidores de “um capitalismo financeiro desregrado”, ou fundamentalismo fanático relativamente à “verdadeira natureza da religião, fonte de comunhão e reconciliação entre homens”, e não mero pretexto para guerras tão injustas como desnecessárias e, quantas vezes, até fratricidas. “O homem é feito para a paz, que é um dom de Deus”, assinala Bento XVI. E mais adiante: “…condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem”, por certo na convicção de que este corretamente saiba informá-la e conduzi-la, segundo os ditames de quem recebeu um precioso dom para o enriquecimento da sua própria individualidade.
“A paz envolve o ser humano na sua integridade e supõe o empenhamento da pessoa inteira: é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação”. É, pois, nesta tríplice envolvência: paz consigo mesmo, paz com Deus, e paz com o próximo, que encontraremos o segredo da felicidade humana, onde jamais haverá lugar para “o egoísmo e a violência, a avidez e o desejo do poder e domínio, a intolerância, o ódio, e as estruturas injustas”.
Para tanto, e porque “a paz não é um sonho, nem uma utopia, mas sim um objetivo possível” (…) “ cada pessoa e cada comunidade – religiosa, civil, educativa e cultura – é chamada a trabalhar pela paz. Esta consiste, principalmente, na realização do bem comum das várias sociedades, primárias e intermédias, nacionais, internacionais e a mundial. Por isso mesmo, pode-se supor que os caminhos para a implementação do bem comum sejam também os caminhos que temos de seguir para se obter a paz”.
Mais adiante o Sumo Pontífice refere que um dos caminhos indispensáveis para o “bem comum e para a paz” é o respeito pela vida humana, desde a conceção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. (…). “Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida”. (…). “Na verdade, como se pode pensar em realizar a paz, o desenvolvimento integral dos povos ou a própria salvaguarda do ambiente sem estar tutelado o direito à vida dos mais frágeis, a começar pelos nascituros?”
E, agora, questionamos nós: o que têm feito, por exemplo, muitos responsáveis políticos relativamente ao “papel decisivo da família, célula básica da sociedade dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, económico e político”, se não facilitarem leis pró abortivas, em detrimento de apoios sérios e mais que justos para com os casais jovens, desejosos de constituir família mas que, por força de condicionalismos vários, não conseguem realizar os seus sonhos?
É o que, infelizmente também vai acontecendo no nosso país que, para além de pequeno e pobre, só lhe faltava “mais esta”: a desgraça de se tornar cada vez mais só, mais velho e mais caduco…
“O obreiro da paz”, prossegue Bento XVI, “deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais” (…) “E, entre os direitos e deveres sociais atualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. (…)” A propósito disto, volto a afirmar que não só a dignidade do homem, mas também razões económicas, sociais e políticas exigem que se continue a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção”.
Quantas advertências e ensinamentos, Deus meu, inclusive para os nossos governantes, hoje por hoje tão sujeitos às gravosas medidas “troikianas”, que a todos afligem e que, em parte, não deixarão de ser a lógica consequência de erradas políticas sócio/económicas levadas a cabo, ao longo de vários anos, por mandantes pouco esclarecidos, muitas vezes incompetentes, quando não meros irresponsáveis…
(Continua)




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