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Tempo que não volta mais

Afirmaram sempre os teóricos e os práticos, que o presente deve ser construído com base nos ensinamentos do passado e visando o futuro. Acredito que esta norma de vida tenha filosofia, inteligência e grande dose de realismo. Acredito também, embora algum leitor possa discordar, que hoje não existem tais preocupações. O mundo não tem tempo para pensar, corre demasiado e a meta cada vez parece mais difícil e distante. Tudo tem mudado vertiginosamente e as pessoas também: formas de “ser”, de “estar”, de “atuar” e de analisar coisas e atitudes.

Artur Soares
11 Jan 2013

Por isso me interrogo frequentemente do porquê de ausência de tantas faltas de educação, de sentimentos sadios ou nobres, de tanta insensibilidade – sobretudo individual – de tantos valores aprendidos para o bem da vida e, hoje, tudo escapa, nada se vê e quando alguém desvia uma pedra do caminho para que ninguém tropece, riem da ação!
Dessa forma, vê-se que o ambiente social que se respira se tem tornado em ambientes stressantes, às vezes em palcos e praças de guerra, campo de conflitos, onde os mais atentos e preocupados possuem um canteiro de ansiedade. Estamos no auge das doenças de foro psicológico e na necessidade absoluta da ida aos confessionários do catolicismo.
Não me sinto “ultrapassado ou velho”, sei o que vivi e aprendi e penso conhecer a realidade atual, isto é, a forma como vive e sente o homem deste século.
Sou do tempo em que só mulheres usavam brincos e os porcos os piercings, para não destruírem as hortas; Sou do tempo em que muitos homens (ainda) usavam chapéu e este, tinha (também) a intenção de dar a saber: “eu tenho palavra, uso chapéu”; Sou do tempo em que os Domingos queriam dizer: “hoje é dia de Missa, da reza do Terço à tarde” e de recolher a casa ao toque das Trindades; Sou do tempo do xarope Benzodiacol e das cataplasmas de linhaça no peito; Sou do tempo em que rapaz só casava com rapariga e de nunca se ouvir a palavra gay; Sou do tempo dos refrigerantes caseiros e dos pirolitos gaseificados; Sou do tempo dos tostões, das cinco “croas” e dos vinte paus; Sou do tempo dos confeitos apanhados do chão no fim dos batizados, do bicarbonato de sódio e do óleo de fígado de bacalhau; Sou do tempo do perfume Realce, vendido por medida, das calças “manga de casaco” e das calças “à boca de sino”; Sou do tempo da brilhantina, dos telegramas com más notícias e da rádio Emissora Nacional; Sou do tempo do Mexicano Cantinflas, do rin-tin-tin, do pó d’arroz e do pirlimpimpim; Sou do tempo dos contos da Carochinha, do tempo em que se deixavam portas abertas ou só com trinco – mesmo de noite – e do tempo em que às duas ou três da madrugada se passeava seguro, pelos caminhos ou ruas da cidade; Sou do tempo em que sentado no café, no restaurante ou na rua, não se diziam palavrões diante de uma senhora; Sou do tempo em que quando o pai ou a mãe dissessem alguma coisa ou dessem uma ordem, respeitava-se a opinião e cumpria-se alegremente ou não, sem nunca questionar; Sou do tempo da pena de aparo que se molhava no tinteiro, dos deveres escolares limpos e bem – feitos a tempo e horas – e de não contestar a qualidade das refeições postas na mesa.
Enfim, sou dum tempo que não volta mais e, se pretendesse ensinar ou repor nos dias de hoje o “modus vivendi” do meu tempo, chamar-me-iam ditador, desatualizado, bota de elástico, insensível, intolerante, velho-ranheta e, como agora se diz: “vai-te encher de moscas, ó finório”!
É verdade que atualmente nem todos os educandos se deixam educar. Imitam os atos e não buscam os princípios, vivem de apetites, das emoções e não das razões.
Assim, o homem sensato também tem de procurar ser sábio e aplicar como, quando e onde deve ensinar, como ainda saber o que nunca deve dizer ou impor. Desse modo, não vou nunca desistir do tempo de hoje, até porque ainda tenho muitas meias-solas para romper. Mas tijolo a tijolo procurarei construir o edifício e o ambiente cristão que devo, tendo em conta que o teimoso ou o intolerante é um porco enfadado que nem acima da pocilga consegue ser admitido ou elevado.




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