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Nós e os Reis Magos

Podemos construir histórias a partir da história que conhecemos da Bíblia. Podemos acrescentar pormenores, realçar uma ou outra personagem e recolher mensagens para a nossa vida individual e coletiva. Há, sobre isso, uma profusão enorme de interpretações e recomendações em diferentes suportes. Li várias na internet e ouvi, no domingo, a homilia na missa do meio-dia da Basílica dos Congregados. Registei a afirmação do celebrante de que podemos ser reis magos nos dias que correm e que, para tal, não é necessário ter riqueza. Basta fazermos o mesmo que fizeram os de há dois milénios.

Luís Martins
8 Jan 2013

Na altura, as ofertas foram ouro, incenso e mirra. Contudo, o importante foi a atitude dos magos. Apesar do estrato social a que pertenciam, não deixaram de ser impressionantemente generosos para com aquela família pobre e humilde, nem cederam à tentação fácil de beneficiarem, social e politicamente, voltando pelo caminho que antes haviam percorrido e respondessem às dúvidas e inquietações de Herodes. Nos dias de hoje, como outrora, as ofertas podem ser outras. Mais simples, condizentes com a condição de cada um. Os pastores certamente ofereceram algo mais modesto.
A leitura dos textos do último domingo, que este ano coincidiu com o dia da Epifania, interpela-nos a que descubramos o Presépio tal qual os reis magos que – curiosos pela novidade, é certo –, souberam descer à simplicidade do local. Percebemos facilmente o comportamento dos pastores, gente simples que apascentava os seus rebanhos, ao serem atraídos para o local do nascimento do Menino Jesus. Com os Reis Magos, a humildade é mais difícil de perceber. Eram gente abastada, de outra condição social. Por que haveriam de ser curvar diante de uma frágil criança, filha de família tão pobre e humilde, abandonada a si própria num momento tão delicado? Por que haveriam de causar constrangimento político – havia nascido o rei dos judeus – e correrem os riscos inerentes ao desrespeitarem a solicitação de Herodes? É verdade que as forças do Alto ajudaram, mas certamente nada aconteceu sem que cada um dos magos tivesse feito a sua parte.
Estiveram atentos aos sinais do tempo e disponíveis para um desafio novo. A história diz-nos que foi a estrela que os orientou. Certamente, mas algo mais importante esteve presente. Nos dias de hoje, as causas são outras e os sinais diferentes. Contudo, para os perceber, tal como então, precisamos de estar predispostos, abertos e recetivos e olhar com atenção a envolvente. Os sinais do nosso tempo e as circunstâncias atuais devem levar-nos a ficar inquietos com o que se passa e a intervir da forma que pudermos e com a disponibilidade que conseguirmos reservar a cada caso.
Nos tempos que correm, a pobreza existe e diz-se que tem crescido em virtude da crise. Todos somos responsáveis, embora uns mais do que outros. Tal como antes, há quem tenha a prerrogativa e a responsabilidade de oferecer melhores condições de vida aos seus semelhantes. Mas a responsabilidade não pode ficar na letra e no discurso de circunstância. Deve confirmar-se na prática, sendo que, em caso algum, pode fazer-se a troco de benefícios pessoais ou ao arrepio da equidade e da justiça social. É nosso dever evitar que isso aconteça.
Abaixo os “herodistas” do nosso tempo. Há dois mil anos, os reis magos estiveram ao serviço de causa nobre – não se serviram – e não patuaram com o conservadorismo interesseiro e matreiro. Não voltaram pelo caminho que levava a Herodes, a personificação da desconfiança, da hostilidade, dos interesses mesquinhos e da tirania do presente de então. Voltaram antes às suas terras, por um caminho diferente, como mensageiros da esperança e do futuro. 
Um dia destes, vamos desmontar o Presépio. Os Reis Magos vão regressar às suas terras. Jesus e seus pais vão ter que se refugiar no Egipto, antes do primeiro se perder junto aos doutores no templo de Jerusalém. A história repetir-se-á. Todos os anos. Com novos sinais e novas preocupações.




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