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Porque diminuem as Confissões? (5)

1 Uma das causas mais conhecidas da diminuição das Confissões e sobre a qual há significativas quadras populares, que reportam ao carisma de santidade que esperam do confessor, é a recusa de se “confessar a um homem pecador como eles” e, pior ainda, ter de se ajoelhar a seus pés. Sentem isso como uma humilhação e interpretam-no como submissão ao clero. É uma objeção que parece ter raízes muito antigas. Recorde-se que, nos primeiros séculos, os cristãos mais carismáticos eram designados para ouvir as confissões. Alegam eles que se confessam a Deus, na intimidade da sua consciência, e que isso lhes basta.

M. Ribeiro Fernandes
6 Jan 2013

Conscientemente ou não, a verdade é que estão a invocar o que diz a Gaudium et Spes, no nº 16: “a consciência é o núcleo mais secreto do homem e o santuário onde se está a sós com Deus” e o que diz S. João 5;16: “se confessardes os vossos pecados a Deus, Ele é fiel para nos perdoar”. Contudo, não recusam a absolvição colectiva em celebração penitencial. No entanto, adiante veremos quanto, do ponto de vista psicológico, este fechar-se sobre si mesmo pode ser empobrecedor para a personalidade, o que pode ser compensado com a celebração penitencial coletiva.
 
2. Outros, porventura mais cultos, leitores da Bíblia, da internet e conhecedores de outras religiões, assumem igual recusa, mas rejeitam também a legitimidade histórica da figura do sacerdote, como tal, alegando que “a figura e a função do sacerdote não têm fundamento na História da Igreja, mas sim na Psicologia das Profundidades e que a sua adopção pela Igreja resulta de uma contaminação por outras religiões”. Esta opinião tem o suporte de notáveis teólogos e não põe minimamente em causa a promessa de Jesus à sua Igreja, expressa em Mt18;18 de perdoar os pecados.

3. Mas, o grande número dos que recusam a Confissão é a legião daqueles que já se desinteressaram de discutir estas questões. Para eles, isto não é assunto nem problema que existe. O desinteresse equivale à negação. Isto divide os que recusam a Confissão em dois campos: o dos que têm outros pontos de vista em relação à atual posição oficial da Igreja e o dos que pura e simplesmente se desinteressaram disso. E este parece ser o mais crescente.

4. Quanto ao preceito da Igreja que determina que os cristãos se confessem ao menos uma vez por ano, toda a gente sabe que a maior parte dos que se assumem estatisticamente como cristãos o ignora. Aliás, a reconciliação não é atitude que se possa impor. A razão fundamental terá a ver com o estilo de vida em Igreja e com o modelo da Confissão. Em relação ao estilo de vida em Igreja, é preciso não esquecer que a Confissão pressupõe um nível de maturidade pessoal e de prática religiosa em comunidade que está longe de existir, a não ser eventualmente em grupos restritos. Nas atuais circunstâncias, não há (ou raramente haverá) na Igreja a preocupação e a práxis de uma vivência de proximidade, em grupo. Tudo funciona em termos de registo pessoal ou de multidão, sem vínculos de proximidade e de grupo religioso de tipo primário. Falta o calor e a proximidade de relação da igreja doméstica. É certo que há uma rede de apoios sociais muito importante, mas até isso é demasiado institucional.
Ora, é precisamente no contexto da proximidade de grupo que a Confissão ganha sentido e é naturalmente sentida. Na ausência desse significado e dessa vivência, a Confissão perde naturalidade e sentido.
Já presenciei, muitas vezes, em terapias de grupo, pessoas que são capazes de exprimir segredos tão íntimos que não revelariam a ninguém, nem na Confissão (são eles que o dizem). Talvez falte na Confissão algo que humanamente encontraram no grupo terapêutico.

Também é preciso que se diga que o ato da Confissão é, em si, humanamente exigente. É, por isso que é arriscado pretender transpor literalmente um preceito de 1216 para os tempos de hoje. Nessa altura, vivia-se numa sociedade mais fechada, mais rural, possivelmente de prática religiosa oficialmente única, que envolvia culturalmente toda a vida social. Até aquilo que era possível fazer em comunidades rurais, há umas dezenas de anos, já hoje não é possível. Quem é que, por exemplo, hoje se ia sujeitar à desarrisca pessoal da Confissão, como se fazia há algumas décadas? Não seria tolerável este controle. As condições sociais mudaram muito e o clima de liberdade religiosa, que é um fator positivo, também influenciou muito essa mudança. Compreende-se a necessidade de apelar a uma comunidade viva de fé, mas isso tem outras implicações.




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